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terça-feira, 7 de junho de 2016

Deus pode ser enganado?

Nos tempos medievais floresciam as catedrais e os povos caminhavam à luz do Evangelho. Ao sul da França viviam os Clochers, família dotada de muita arte. Dedicavam-se eles à complexa tarefa de fundir sinos. Conheciam os metais em seus mais específicos aspectos e sabiam as ligas, a espessura, o peso e a dimensão da boca ou do badalo de cada sino, para que tivesse o timbre desejado e tocasse a nota que lhe correspondia. Não só faziam sinos para as igrejas com um único campanário, como eram especialistas em carrilhões.
Os Clochers se ufanavam de ser descendentes do patriarca que, havia alguns séculos, servira a Carlos Magno, o ilustre imperador do Sacro Império, motivo pelo qual a fama de sua linhagem se espalhara pela Europa.

Louis Clocher pertencia à décima segunda geração e herdara não só o talento e a virtude de seus ancestrais, como também a tradicional oficina. Tivera três filhos, aos quais educara eximiamente. Pierre, o caçula, nascera-lhe na velhice e era seu preferido; Jacques, o do meio, era muito reto, mas um tanto desastrado com os sinos... Ambos eram piedosos como o pai e se dedicavam ao campo. François, o mais velho, possuía o dote artístico dos avós e, desde a infância, ajudava o pai, demonstrando muita aptidão para o ofício. Porém, não tinha suas qualidades sobrenaturais, pois não gostava de rezar nem de assistir à Missa...
Debilitado em sua saúde e pressentindo a morte próxima, o velho Clocher mandou chamar um sacerdote a fim de receber os Santos Óleos. Revigorado por tal consolo espiritual, chamou junto a si os filhos a fim de dar-lhes suas últimas recomendações.

domingo, 1 de novembro de 2015

A ORIGEM DAS PÉROLAS

Tombou Abel, assassinado pelo invejoso e cruel irmão.
Impulsionada pelo instinto materno, tentou Eva reanimar o filho morto, acariciando longamente seu corpo exânime.
Quando se convenceu de que Abel não despertava mais, desconsolada e aflita, caminhou longa jornada, até junto à praia do mar a olhar, assombrada, a extensão das águas até então desconhecidas. Nesse momento, afloraram-lhe aos olhos suas primeiras lágrimas. Uma após outra rolou silenciosamente pela face e foi cair sobre as pétalas de pequeninas flores, entre os rochedos.
Adão, que havia seguido ocultamente sua esposa, observava de longe, sem ser visto. Quando Eva se afastou, foi ver o que havia caído dos olhos chorosos da mulher e, encantado com a forma e o esplendor das gotas minúsculas, tomou-as, escondeu-as no interior de conchas e enterrou-as na areia.
Curioso, esperou o mar que Adão Adormecesse, ao cair da noite. Fez então um esforço titânico, cresceu, elevou-se, estendeu ondas de espuma até o tesouro escondido e recolheu feliz as conchas das lágrimas.
Mas as ondas, ao contato das lágrimas, que se fizeram pérolas, também choraram e até hoje se escuta sua voz plangente junto das praias.
E, quando o homem quer uma pérola, tem de escutar primeiro o pranto das vagas e descer depois à profundidade do mar, onde se ocultam ainda, em modestas conchas, as lágrimas de nossa primeira mãe.

Athalicio Pithan. Lendas e Alegorias - Ed Brasilia - Porto Alegre – RS – 1ª edição – 1945 - pág. 34

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Assim nos trata Deus...

Naquele ano, fortes temporais castigaram a região montanhosa onde viviam os avós de Caio. Ali predominavam pequenos vinhedos e vinícolas artesanais. Os frutos colhidos tinham um sabor todo especial, devido ao clima e à composição do solo, fazendo com que a produção chegasse até à capital e crescesse a fama de seus vinhos, de singular degustação. Com o mau tempo, porém, a safra se prejudicara e, por conseguinte, a preparação da bebida, levando muitas famílias a passarem sérias dificuldades.
Caio tinha encanto pela propriedade dos avós e, a cada ano, quando terminavam as classes, fazia as malas para viajar às montanhas e passar as férias com eles, a quem tanto queria. Dona Ana e o senhor Alfredo sempre o esperavam de braços abertos, pois o neto era a alegria da casa. Muito vivo, logo cedo ele acompanhava o avô na lida do campo, fazendo festa para cada cacho de uva que conseguia colher, ficando nas pontinhas dos pés, e se não Os frutos colhidos naquela região tinham um sabor todo especial fosse o cuidado do amável e atento ancião entraria lagar adentro, para também espremer as uvas. Ao entardecer, todos se reuniam no salão, patrão e empregados, onde rezavam juntos o Rosário à Virgem Santíssima, e à noite, depois do saboroso jantar feito em fogão a lenha, a prosa se estendia e dona Ana contava-lhe belas histórias, enquanto tricotava.

sábado, 30 de maio de 2015

Um criminoso entre 56 inocentes

A leitura da carta do rei deixou Genaro imerso em graves considerações. Que difícil incumbência lhe dava! Ser rígido e misericordioso ao mesmo tempo... e logo na prisão de Castel dell’Uovo!

Conta-se que no antigo Reino de Nápoles, muito antes da invasão das tropas francesas, morrera o grão-conselheiro que, com sabedoria, havia auxiliado o soberano a governar a nação, e este hesitava sobre quem nomear para substituí-lo.
Inclinava-se para um amigo seu, chamado Genaro, experiente juiz, homem probo que não titubeava em testemunhar publicamente sua fé. O importante cargo, porém, era cobiçado por outras personalidades da Corte, e o rei precisava evitar entrechoques partidários. Procurando encontrar um meio de nomear Genaro sem causar ressentimentos nos opositores, teve certo dia uma idéia genial: “Genaro é sem dúvida o mais competente de todos os magistrados do Reino. Vou propor-lhe um caso bem intrincado, e tenho certeza de que ele o resolverá. Demonstrada publicamente sua capacidade, ninguém poderá queixar-se de ser ele nomeado grão conselheiro...”
Tomada essa resolução, o soberano enviou a Genaro uma carta:

domingo, 12 de outubro de 2014

O divino silêncio

Num antigo mosteiro do norte da Europa vivia um piedoso frade chamado Rodolfo, grande devoto da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com frequência, ele se refugiava aos pés de um grande crucifixo que era muito venerado na capela, não só pelos religiosos, mas também pelo povo da região.
Ali, gostava Frei Rodolfo de meditar especialmente sobre estas palavras do Divino Redentor: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonastes?”. Queria ele, de alguma forma, consolar o Senhor naquela situação de agonia e abandono. E um dia, movido por este nobre e generoso desejo, decidiu fazer-Lhe uma ousada súplica. Ajoelhando-se aos pés da santa imagem, rezou nestes termos:

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Salvo por uma Missa

Nas pequenas cidades todos se conhecem. Os laços de amizade se tornam mais estreitos e os bons amigos tratam-se como verdadeiros irmãos. Foi o que se passou com Marcos e Pedro. Os dois cresceram na acolhedora Lagoa Dourada: juntos fizeram a Primeira Comunhão na Matriz do Senhor Bom Jesus, estudaram na Escola Municipal e participaram ativamente das atividades paroquiais, sendo coroinhas em todas as Missas solenes.
Marcos pertencia a uma família muito católica e recebera ali uma grande devoção à Santa Missa. Desde muito pequenino, dona Matilde, sua avó, o levava bem cedo à igreja para participar da Sagrada Eucaristia e lhe explicava cada passo do Santo Sacrifício, deixando-o encantado com o amor de Jesus por cada um de nós.
Pedro, entretanto, não recebera no lar tão piedosas influências. Seus pais eram católicos, porém, pouco devotos; preocupava-lhes apenas ter boa saúde e êxito nos negócios. Fora dona Matilde, a avó do amigo, quem lhe dera formação religiosa. Era ela quem ensinava às duas inseparáveis crianças o catecismo. Foi ela quem os preparou para a Primeira Comunhão e os animou a serem coroinhas na Matriz. Passou o tempo e os dois amigos tornaram-se homens feitos. Constituíram família e tiveram filhos, continuando a viver na mesma Lagoa Dourada.

sábado, 23 de agosto de 2014

Só para Te ver...

Na pequena cidade de São José de Monte Verde, vivia um homem muito rico chamado Joaquim. Fazendeiro, possuía muitas terras, centenas de bois e uma bela casa na cidade. Mas tinha um grave defeito: era bastante mesquinho e não gostava de nada que se referisse à religião.
Na casa de Joaquim vivia uma criança muito piedosa e engraçadinha, chamada Zita. Era filha de Sara, a fiel governanta, cuja mãe, por sua vez, já tinha servido à família na fazenda. A menina, muito esperta e diligente, sabia de cor todo o serviço que deveria fazer para ajudar à mãe.
Sara era muito religiosa e ensinara Zita a rezar desde pequenina. Nas horas de folga, levava-a à matriz de Nossa Senhora do Perdão e ali passavam horas rezando, venerando as imagens e admirando as pinturas das paredes e do teto da bela igrejinha colonial.

domingo, 10 de agosto de 2014

O Vale das Cruzes

Mestre Schmerzen ergueu o martelo lentamente, olhou o pequenino prego que segurava na mão esquerda, corrigiu a pontaria e desferiu um rápido golpe... acertando em cheio o dedo polegar.
— Aiii!
Deu um salto e, nesse movimento brusco, derrubou uma lata de tinta para couros colocada ao seu lado. O líquido negro respingou nos móveis e em vários sapatos, esparramou-se pelo chão e começou a entrar pelas frestas do assoalho. Poucas tintas são tão penetrantes como a usada para tingir couros, e ele sabia bem disso. Sua oficina de mestre sapateiro estava um desastre completo.
Cinco pares de sapatos perdidos! E a lata que caíra era justamente a da tinta mais cara! Oh! Olhou desanimado para as botas e sapatos empilhados na prateleira, seu avental sujo, suas mãos pretas de tinta. Vendo pela janela o filho mais velho que chegava de Würsburg a cavalo, com mais um pacote de couro, pensou mal-humorado: “Infeliz! Está condenado a ser outro sapateiro encardido como eu, e passar a vida entre couros mal-cheirosos e tintas pegajosas”.
Na hora do almoço, mestre Schmerzen permaneceu calado. Prestava atenção na esposa, movendo-se de um lado para outro na cozinha. Ela era encantadora quando moça. Mas agora...
Pela tarde, esqueceu aberta a portinhola da oficina, e os filhos pequenos ali entraram para brincar, sujaram-se e puseram tudo em desordem. Enquanto, furioso, ele os empurrava para fora, lamentava-se: “É... não tenho dinheiro nem para montar uma oficina separada da residência”.
Mestre Schmerzen estava ranzinza e continuava a lamuriar-se. A vida lhe parecia insuportável! No fim da tarde, resolveu ir desabafar seus azares com o primo, dono da pequena cervejaria estabelecida a poucos metros da sapataria. Gorducho e bonachão, enquanto servia um caneco de cerveja bávara para outro freguês, o primo o aconselhou:
— Ora... Pare de reclamar, Schimmy! Você está vendo tudo “cinzento” hoje! Nesta vida, cada um precisa carregar a sua cruz. Carregue a sua com ânimo!...
O argumento do primo não o convenceu. Ele pôs o chapéu na cabeça, despediu-se e saiu, dizendo para si mesmo: “Cruz... Cruz... Sim, cada um tem a sua, mas a minha é tão pesada!” Resmungando saiu da cervejaria, resmungando entrou em casa, e à noite, já deitado, murmurava: “É verdade, cada um deve carregar sua cruz, mas Deus bem podia arranjar-me uma mais leve!”
* * *
Por fim, mestre Schmerzen adormeceu. No meio da noite, sentiu que o cobertor não protegia seus ombros, e, com os olhos ainda fechados, começou a tatear para encontrá-lo. Nada. Abriu os olhos, levantou-se e percebeu que não estava mais em sua casa. Aos poucos, a escuridão foi desaparecendo, e então ele viu à sua frente um jovem alto, vestido de branco e com grandes asas nas costas. Seria mesmo um anjo?
— Sim, sou o seu Anjo da Guarda. Deus ouviu as suas reclamações. Dê uma olhada ao redor.
O mestre sapateiro, então, observou que se encontrava no centro de um imenso vale cercado de altas montanhas. Ao longe, avistou algo parecido com um bosque, mas constituído de árvores e arbustos singulares: de tronco muito reto e aparentemente sem folhas.
— Não são árvores, Schmerzen. Vamos vê-las mais de perto.
Puseram-se a caminhar, e quando se aproximaram, notou que se tratava de... cruzes. Milhares delas. Talvez milhões. De todos os tamanhos e formatos. Claras, escuras. Umas de madeira, outras de metal, umas lisas, outras ásperas. Schmerzen ficou impressionado com a variedade: não havia sequer duas iguais, todas eram diferentes umas das outras. E cada uma trazia escrito o nome da pessoa a quem pertencia.
— Neste vale, Deus guarda a medida dos sofrimentos reservados por Ele para cada homem, cada mulher. É o Vale das Cruzes. E como você se queixou tanto do peso da sua, o Altíssimo lhe permite escolher outra. Vá... procure à vontade e pegue a que quiser.
Schmerzen ficou inseguro por um instante, mas, lembrando-se de todas as amarguras de sua vida, embrenhou-se por aquela floresta de cruzes. Evitou as grandes e vasculhou a região onde se encontravam as menores. Pegou uma: pareceu-lhe muito áspera. Experimentou outra: tinha as arestas muito agudas. Após algum tempo de procura, encontrou uma bem pequena, mas, sendo de chumbo, pesava mais que as outras. Por fim, quase tropeçou numa minúscula. Ergueu-a: não tinha mais de um palmo de altura, era de madeira muito leve, bem lisa e sem pontas. Oh, sem dúvida, a cruz ideal! Agarrando-a com firmeza, como se alguém pudesse querer apossarse dela, disse ao Anjo:
— Quero esta aqui!
— É mesmo esta? Pois bem, meu amigo... leia o que está escrito nela.
O sapateiro colocou-a bem diante dos olhos e, com espanto, leu o nome: Mestre Schmerzen! Essa cruz, a mais leve, a mais lisa, a menos incômoda de todas, era a sua, da qual ele tanto se queixava!
* * *
Um grito de vergonha e espanto saltou de sua garganta e... o despertou. Cheio de suor e com o coração disparado, mestre Schmerzen estava ainda deitado em sua cama. Levantou-se, foi correndo abrir a janela e exclamou, ao ver o resplandecente sol de primavera:
— Que dia bonito!
Mas então se deu conta de que era um dia exatamente como o anterior: o mesmo sol, a mesma primavera; em frente da janela, o filho mais velho, assobiando contente, descarregava mais alguns pacotes de couro. “Na verdade — pensou —, meu filho é dos poucos rapazes da cidade que têm emprego garantido”. O ruído das crianças brincando perto da oficina trouxe-lhe à mente outro raciocínio otimista: “Afinal, é uma grande vantagem trabalhar ao lado de casa, pois assim posso estar o dia inteiro junto à minha família”.
Da cozinha, subia o cheiro delicioso do café da manhã... E a voz da esposa:
— Schmerzen, meu bem... Venha logo, seus ovos mexidos vão esfriar!
“É... ela já não é mais a jovem de outrora — ponderou o mestre sapateiro —, mas é tão bondosa... E como cozinha bem!” Saindo da janela, percebeu que a pequena cruz estava sobre o criado-mudo. O Anjo ali a deixara, como lembrança...
Schmerzen tomou-a em suas mãos, olhando-a por alguns instantes, pensativo. Osculou-a, colocou-a reverentemente sobre a mesinha e, assobiando alegre, desceu para o café, e para continuar a vida.

Martha Lucía Ovalle - Revista Arautos do Evangelho n. 59 nov 2006

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A pedra no caminho

Desde que o rei ascendera ao trono, tudo corria bem naquele reino distante, outrora assolado por contínuas guerras.
O soberano era ao mesmo tempo forte e bondoso. Dominava como ninguém a arte militar e possuía tropas bem treinadas, mas preferia alcançar a paz através de amistosos tratados. Por isso, visando a glória de Deus e o bem do seu povo, havia assinado já acordos de cooperação com a maior parte dos estados limítrofes.
As aldeias do reino estavam em pleno desenvolvimento e os negócios com os estados vizinhos eram bastante prósperos. O clima ameno favorecia o plantio dos mais diversos vegetais, e até a natureza parecia estar ajudando a tornar aquela região semelhante a um paraíso.
Os habitantes eram laboriosos, solidários e piedosos. As igrejas estavam sempre cheias e os Sacramentos eram muito frequentados. Reinava entre todos um espírito de fraternidade cristã que fazia lembrar o mandamento novo de Jesus: “Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34).

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Os tesouros do Céu

Francisco Abdala era um próspero comerciante de tecidos do sul da Espanha. De antiga estirpe muçulmana convertida ao Cristianismo, destacava-se por ser homem piedoso e caritativo. Não tinha filhos, mas adotou suas três pequenas sobrinhas órfãs, das quais cuidava com carinho e solicitude.
As meninas adaptaram-se sem dificuldade ao novo lar. Elas recebiam uma educação primorosa, estudavam num bom colégio e, sobretudo, eram instruídas na Fé. Logo que lhes foi permitido, fizeram a Primeira Comunhão.
Com o passar dos anos, foi-se acentuando a diferença de caráter entre elas. Maria, a mais velha, afável e caridosa, estava sempre preocupada com os outros; Laura, a do meio, gostava de se enfeitar e chamar a atenção sobre si; e Catarina, a caçula, mostrava preocupante propensão para o egoísmo.
Um dia, Francisco chamou as três e lhes disse em tom paternal e solene:

domingo, 27 de abril de 2014

Um arco-íris para o Menino Jesus

A cada um de nós, Deus concede dons especiais, e só lhe daremos inteira alegria se os desenvolvermos visando à perfeição. Sempre mais rumo a Deus, deve ser o lema que nos guie na vida. E muitas são as vias pelas quais alcançamos esse objetivo. Ilustra bem essa variedade uma lenda medieval sobre um jogral — bufão que percorria as cortes, cantando, declamando ou fazendo malabarismos — que na sua simplicidade quis alegrar o Menino Jesus com sua arte e seus dons. Na França é conhecida como: “Le jongleur de Notre Dame”.
Na pequena e quente Sorrento (Itália), banhada pelo Mar Mediterrâneo, vivia um jovem chamado Giovanni, órfão de pai e mãe. Pouco inteligente, mas dotado de muitas habilidades manuais, era capaz de fazer maravilhosos malabarismos. Todas as manhãs a multidão ia à feira na praça central para vê-lo na banca de frutas do signore Baptista. Fazia girar pelo ar limões, pêras, laranjas, maçãs e até pepinos. Por suas representações, muitas pessoas compravam as frutas e legumes do signore Baptista. Em recompensa, a esposa do signore dava-lhe um bom prato de sopa quente.
Certo dia, um grupo de artistas apresentou-se na praça central da cidade. Giovanni foi assistir. Ficou encantado! Pediu ao “Senhor Maestro” um lugar no espetáculo, fez-lhe uma demonstração de seus malabarismos com as frutas e foi aceito.
Assim, disse adeus aos Baptista e partiu pelo mundo. Já não mais apresentava-se com seus farrapos, mas com roupas vistosas e um saco colorido. Em cada espetáculo, fazia uma respeitosa vênia ao público, desenrolava um tapete e iniciava. Primeiro, os paus coloridos e brilhantes rodopiavam pelo ar. Depois, os pratos que equilibrava numa vareta, fazendo-os girar. Garrafas de madeira multicoloridas passavam pelo ar de uma mão para outra, como também argolas e tochas acesas.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ladrão! Segura o ladrão!

As feiras da Europa medieval não eram como as de hoje, barulhentas aglomerações de barracas vendendo frutas, legumes, carnes, peixes e miudezas várias. Tratava-se, pelo contrário, de imensos mercados públicos dos quais participavam comerciantes de diversos países.
Realizavam-se em determinadas épocas do ano e duravam dias seguidos. Nelas se vendiam também jóias de ouro e prata, pedras preciosas, tecidos finos, tapetes orientais e todo tipo de mercadorias de grande valor. Os reis e governantes favoreciam a tal ponto esses eventos que elas se tornaram o principal instrumento do comércio internacional.
De uma dessas feiras retornava um esforçado mercador. Embora cansado por mais de um mês de duro trabalho, estava ele contente pelos bons negócios que havia feito. Levava consigo, numa boa bolsa de couro, uma fortuna em moedas de ouro.
A meio caminho, Gontran — assim se chamava ele, em homenagem a São Gontran, rei da Borgonha no final do séc. VI — teve uma boa idéia: em vez de ir em linha reta para sua aldeia, fazer um desvio e passar pela cidade de Amiens para contemplar a famosa imagem do Divino Salvador, conhecida pelo nome de “Belo Deus d’Amiens”, cuja perfeição atraía visitantes de toda a Europa.
Assim pensou, assim fez. Dirigindo-se rumo ao Norte, atravessou os verdejantes campos do vale do Rio Oise e alcançou em poucos dias as margens do Rio Somme, para fazer comodamente de barca o resto da viagem.
Gontran era bom comerciante, mas, sobretudo, bom cristão. Sabia apreciar as maravilhas criadas por Deus e tinha alma contemplativa. Assim, encantouse com as paisagens, as aldeias singelas e os magníficos castelos que podia ver nas duas margens do rio.
Chegando a Amiens, foi direto para a Catedral e ficou longo tempo extasiado, contemplando o “Belo Deus”. Depois entrou para rezar diante de uma imagem da Virgem Maria, que acolhia com maternal sorriso seus devotos. Ajoelhou-se, pousou ao lado sua bolsa de couro e lá ficou em oração durante quase uma hora. Quando, por fim, decidiu seguir seu caminho, saiu distraído e... esqueceu a bolsa no chão!
Não demorou muito em dar-se conta do acontecido. Aflito, voltou apressadamente à Catedral, na esperança de ainda encontrar seu tesouro onde o havia deixado. Nada! A bolsa ali não estava mais... Pediu informação ao padre, ao sacristão, a alguns fiéis que por lá encontrou. Ninguém havia visto objeto algum no chão.
— Pobre de mim, perdi tudo! — exclamou angustiado.
Em pouco tempo, porém, acalmouse. E, ajoelhando-se novamente ante a imagem de Nossa Senhora, pediu-Lhe auxílio para resolver seu problema. Saiu preocupado, não sabia onde nem como procurar, mas algo lhe dizia no fundo da alma que a Virgem Mãe ia de alguma forma ajudá-lo a recuperar as suas moedas de ouro.
O que acontecera, afinal, com a preciosa bolsa?
Nesse meio tempo, tinha vindo rezar diante da mesma imagem da Virgem Bendita um artesão residente próximo à Catedral, homem honrado e verdadeiro cristão. Lá chegando, viu no chão a bolsa de couro, selada e guarnecida de um pequeno fecho. Pegou-a, e logo percebeu o seu conteúdo.
O mau pensamento de apropriar-se do bem alheio nem sequer lhe passou pela mente honesta. Sua preocupação foi bem diferente: “Meu Deus, como fazer para encontrar o seu verdadeiro dono? Se mando apregoar pela cidade o que acabo de encontrar, não faltará gente desonesta desejosa de apossar-se do que não lhe pertence!”
Depois de pensar um pouco e pedir ajuda a Nossa Senhora, voltou para casa, guardou a bolsa no cofre e escreveu a giz no portão de entrada: “Se alguém perdeu alguma coisa, venha falar com o dono desta casa”.
Por lá passou Gontran, após ter vagueado por muitas ruas de Amiens. Leu o aviso escrito no portão, viu o artesão postado na janela e perguntou-lhe:
— Sois vós, senhor, o dono desta casa?
— Sim, senhor, enquanto Deus o permitir. Em que vos posso servir? — Dizei-me: quem escreveu essas palavras em vosso portão?
— Meu bom amigo, passa por aqui muita gente, sobretudo estudantes que gostam de escrever onde quer que lhes passe pela cabeça. Mas, perdestes algo? — disse o artesão, fingindo a mais completa indiferença.
— Tudo quanto consegui ajuntar em anos de trabalho.
— O que, precisamente?
— Uma bolsa de couro, guarnecida de um fecho e selada, repleta de moedas de ouro.
O mercador descreveu a bolsa, nos mínimos detalhes, de modo a não deixar qualquer dúvida de ser ele o seu verdadeiro dono. O artesão convidou-o a entrar na casa, tirou do cofre a bolsa e lhe entregou, dizendo:
— Aqui está. É sua. Que Deus o ajude e proteja.
Diante de tanta honestidade, Gontran, cheio de admiração, deixou-se levar por um generoso impulso de alma: “Ó Belo Deus d’Amiens! — pensou — este modesto e piedoso artesão é mais digno do que eu de possuir esta fortuna”. E devolveu a bolsa ao artesão, dizendo-lhe:
— Senhor, este dinheiro estará melhor colocado em vossas mãos do que nas minhas. Ficai com ele, e que Deus vos dê muita felicidade.
— Ah, caro amigo, levai vossa bolsa, por favor! É a vós que ela pertence! Gontran, porém, recusou-se categoricamente a aceitá-la de volta. E, para livrar-se da insistência do artesão, saiu correndo. Este partiu em sua perseguição, bradando a plenos pulmões:
— Ladrão! Segura o ladrão! Ouvindo esses brados, os transeuntes cercaram o mercador fugitivo, agarraram-no e perguntaram ao artesão:
— Aqui está o homem, seguro. Que vos roubou ele?
— Senhores, ele quis roubar-me a honra e a probidade, que fiz questão de cultivar ao longo de minha vida.
A essas alturas, já tinha se juntado na rua uma pequena multidão, no meio da qual se destacava um membro do Conselho Municipal, que intimou o artesão a explicar melhor o caso. Este, então, contou toda a história, e os habitantes de Amiens deram-lhe inteira razão.

E o mercador foi obrigado a levar suas moedas de ouro... 
Ir Maria Teresa Ribeiro Matos, EP - Revista Arautos do Evangelho agosto 2004

domingo, 13 de abril de 2014

O divino silêncio

Num antigo mosteiro do norte da Europa vivia um piedoso frade chamado Rodolfo, grande devoto da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com frequência, ele se refugiava aos pés de um grande crucifixo que era muito venerado na capela, não só pelos religiosos, mas também pelo povo da região.
Ali, gostava Frei Rodolfo de meditar especialmente sobre estas palavras do Divino Redentor: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonastes?”. Queria ele, de alguma forma, consolar o Senhor naquela situação de agonia e abandono. E um dia, movido por este nobre e generoso desejo, decidiu fazer-Lhe uma ousada súplica. Ajoelhando-se aos pés da santa imagem, rezou nestes termos:
— Senhor, vejo o quanto Vós sofrestes por todos nós. Eis-me aqui, vosso pobre filho, venho solicitar-Vos algo especial: concedei-me a graça de ficar crucificado em vosso lugar, padecendo por Vós.
Tocado por uma graça de profunda piedade, o bom frade não tirava os olhos da cruz, como esperando uma resposta. Por isso, não se surpreendeu ao ver a imagem tomar vida e dizer-lhe:

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O preço de um resgate

Um pai de família, posto no terrível dilema de escolher entre salvar a vida de seu próprio filho, ou deixá-lo morrer afogado e salvar a de um estranho, tomou uma decisão heroica. Qual foi o resultado?
Era domingo, terminara a Missa. O zeloso sacerdote, muito estimado pelos seus paroquianos, convidou para vir à frente um ancião de aspecto venerável. Depois de apresentá-lo como o mais querido amigo de sua já remota mocidade, manifestou o desejo de que ele saudasse os presentes e lhes dirigisse algumas palavras que julgasse proveitosas para uma piedosa reflexão.
Os fiéis fitavam com curiosidade o idoso senhor, que se mostrava pensativo, simples e despretensioso. Este, após os costumeiros cumprimentos iniciais, disse-lhes:
“Eu quero contar-lhes um fato ocorrido há vários anos, a fim de tirarmos uma lição. Tenho certeza de que todos gostarão de ouvir esta narração.
“Um pai de família, seu filho adolescente e um amigo deste navegavam num barco pelo mar quando foram surpreendidos por violenta tempestade. Marinheiro experimentado, o pai tratou de regressar logo à praia. Mas era tarde... As ondas eram tão violentas que em pouco tempo ele perdeu o controle da embarcação.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Pincel de Deus

Deus quer se servir de nós como instrumentos para “pintar” seu rosto divino nas almas de nossos irmãos.
Imaginemos um pincel capaz de ver, pensar, querer e sentir — como o ser humano — e posto na mão de um grande pintor. Vendo surgir pouco a pouco na tela a obra-prima, ele certamente ficaria alegre por sentir-se um instrumento indispensável para a sua realização.
Pois bem, em relação a Deus, todos nós somos como que pincéis postos nas mãos do Divino Pintor, para a execução de sua obra nas almas. Não que sejamos instrumentos necessários — porque Ele pode fazer tudo sem auxílio de pessoa alguma — mas porque, em sua infinita Sabedoria, Ele deseja nossa cooperação.
Às vezes, Deus fala diretamente às almas, de forma irresistível, como a Saulo no caminho de Damasco.
Com frequência, porém, Jesus limita-se a sussurrar no fundo dos corações: “Volte-se para Mim... Veja, a felicidade não está no prazer pecaminoso, mas na prática da virtude! Pense na eternidade... Recorra à minha Mãe, Ela virá em seu auxílio.”
Infelizmente, a imensa maioria dos homens é surda, ou quase tanto, a esses insistentes apelos da graça. Mas Nosso Senhor, assim rejeitado, não desiste. Ele quer pintar em todas as almas a mais excelsa obra-prima que possa existir: o seu próprio rosto divino.
É na execução dessa sublime pintura que entra nosso papel de “pincel de Deus”. A todo momento, Ele solicita a colaboração de cada um de nós para sua grandiosa obra de santificação das almas.
Como podemos responder SIM a esse pedido?
De um modo muito simples, na rotina da vida diária. Em primeiro lugar, rezando, pois nada se faz sem a graça, em matéria de apostolado. Muito importante também é dar o bom exemplo, um dos mais eficazes convites à conversão; dizer, na ocasião certa, uma palavra de estímulo ou de consolo; dar um conselho oportuno; recomendar a leitura de um bom livro ou uma boa revista; convidar para a Missa, ou a recitação do Rosário. Enfim, até mesmo por um simples olhar podemos ser instrumentos úteis e conduzir a Deus, por meio de Nossa Senhora, nossos irmãos na Fé.

Se nos dispusermos a ser pincéis dóceis nas mãos do Divino Pintor, experimentaremos uma das maiores recompensas que se pode ter nesta terra: a alegria de ver a ação da graça purificando e transformando as almas daqueles que são objeto do nosso apostolado. E infinitamente maior será a recompensa que receberemos no Céu, por toda a eternidade!
Pe Francisco Teixeira de Araújo, EP - Revista Arautos do Evangelho n. 27. mar 2004

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pequenos sacrifícios...

Irmã Daniela Ayau Valladares, EP
Havia muitos anos que as Irmãs Marcelinas estavam estabelecidas na pitoresca Chambéry, bela cidade próxima aos Alpes franceses. Devotadas à educação cristã da juventude, davam formação às alunas externas, mas também tinham internato, para aquelas que viviam em lugares mais distantes ou queriam levar uma vida mais regrada.
Seu educandário era famoso em toda a Saboia pela qualidade do ensino, mas, sobretudo, pelo esmero com que as freiras procuravam conduzir as alunas pelas vias da virtude e a afetuosa disciplina com que lhes formavam o caráter.