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quarta-feira, 29 de março de 2017

Uma ponte para o Céu

Aproximava-se a solene festa de Primeira Comunhão no colégio das Irmãs da Caridade. Apressavam-se as religiosas na confecção dos trajes das crianças e nos ­bordados das toalhas e alfaias litúrgicas que seriam utilizados em tão importante celebração. Muito ocupada e diligente, a bondosa irmã Estella preparava as crianças para o Banquete Celestial. Ela podia se considerar uma mestra feliz: seus alunos mostravam-se zelosos e entusiasmados pelas verdades da Fé, e a devoção refulgia em seus inocentes corações.
Um, porém, a contristava: Lucas, o mais travesso do grupo e muito preguiçoso no cumprimento dos deveres. Apesar de ser piedoso e ter bom coração, ele passava o tempo todo reclamando dos sofrimentos, incômodos ou aborrecimentos do dia a dia. De manhã, quando sua mãe ia acordá-lo, enrolava-se nos cobertores e continuava dormindo. Intimado a levantar-se, fingia com grande talento indisposições e moléstias que lhe angariassem alguns minutos extras na cama...
Na escola, nunca apresentava os trabalhos com pontualidade e fugia das provas sempre que podia. Para evitar uma delas, chegou a simular uma misteriosa paralisia muscular que lhe impedia de segurar o lápis nas mãos... O professor decidiu, então, tomar-lhe a lição oralmente. No entanto, foi uma tentativa frustrada, pois ele aparentou sentir uma terrível dor nos joelhos por ficar de pé durante a arguição, e queixou-se de agudas pontadas na coluna quando recebeu ordem para sentar-se!

sábado, 5 de novembro de 2016

Valor da oração

No princípio do século XX um grupo de 10 rapazes alunos do Colégio de Viviers, na Bélgica, formou uma Associação a que deram por título União de Orações. Esses bons jovens comprometeram-se a rezar e a fazer meia hora de oração uma vez por semana para que Deus abençoasse a Missão do seu antigo professor, Padre Luís Bernarert, em Colombo (atual Sri Lanka). Eis o que conta este sacerdote:
“Encontrei, certa vez, num quarto particular do hospital um empregado dos correios, boa pessoa, bastante inteligente, mas vítima dum câncer. As suas três filhas frequentavam a escola da missão. Ele porém era budista e amigo dos sacerdotes dessa religião. Tratava-se de um caso desesperado e ele bem o entendia.
Consegui estar a sós com ele, falei-lhe à vontade. Depois de meia hora de conversa, perguntei-lhe se queria ser batizado. Respondeu-me: “Compreendi tudo quanto me disse. Vou pensar, e amanhã dou-lhe a resposta.”

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Apenas água com sal...

A multidão alvoroçada se reunira na praça e todos comentavam algo inusitado: ninguém mais conseguia pescar!
- Acaso esgotaram-se os peixes do mar? - perguntava um.
- Um maremoto se avizinha? - interrogava outro.
- Os tubarões devoraram os cardumes? - se aventurou a indagar uma criança...
Dúvidas como estas assaltavam não poucos moradores da aldeia, cujo sustento dependia da pesca, especialmente abundante naquela região. Entretanto, havia semanas que os pescadores lançavam redes e anzóis, sem resultado.
Enquanto os habitantes tentavam entender o motivo da tragédia, reuniam-se no escritório da basílica o pároco e seus assistentes. Debatiam eles sobre a melhor forma de resolver outro problema: afervorar o povo, que a cada dia se afundava mais na preocupação com o dinheiro e as coisas materiais.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Poderosa intercessão

O casal Gastinelli não podia esconder sua alegria, pois a jovem esposa logo daria à luz um menino, seu primeiro filho! Giacomo já havia contado aos seus colegas padeiros a boa-nova, e Mirella também comunicara à diretora do asilo, onde trabalhava como cozinheira dos velhinhos.
Entretanto, algumas preocupações da vida doméstica pareciam querer toldar este contentamento. Como eram pobres, a chegada de mais um membro para a família significava gastos maiores, e esse tema passou a figurar como o centro de muitas das conversas entre Mirella e o esposo. A casinha onde moravam, nas proximidades da Igreja de São Francisco Xavier, era alugada de um proprietário exigente, com prazos fixos de pagamento, e a futura mãe não estava podendo trabalhar naquelas semanas, ficando aflita com o que poderia acontecer.
— Giacomo, faltam poucas semanas para vencer o aluguel de nossa casa. Seu trabalho não rende muito e temos apenas o suficiente para nossa despensa não ficar vazia... Precisamos encontrar uma solução! 

domingo, 10 de agosto de 2014

O Vale das Cruzes

Mestre Schmerzen ergueu o martelo lentamente, olhou o pequenino prego que segurava na mão esquerda, corrigiu a pontaria e desferiu um rápido golpe... acertando em cheio o dedo polegar.
— Aiii!
Deu um salto e, nesse movimento brusco, derrubou uma lata de tinta para couros colocada ao seu lado. O líquido negro respingou nos móveis e em vários sapatos, esparramou-se pelo chão e começou a entrar pelas frestas do assoalho. Poucas tintas são tão penetrantes como a usada para tingir couros, e ele sabia bem disso. Sua oficina de mestre sapateiro estava um desastre completo.
Cinco pares de sapatos perdidos! E a lata que caíra era justamente a da tinta mais cara! Oh! Olhou desanimado para as botas e sapatos empilhados na prateleira, seu avental sujo, suas mãos pretas de tinta. Vendo pela janela o filho mais velho que chegava de Würsburg a cavalo, com mais um pacote de couro, pensou mal-humorado: “Infeliz! Está condenado a ser outro sapateiro encardido como eu, e passar a vida entre couros mal-cheirosos e tintas pegajosas”.
Na hora do almoço, mestre Schmerzen permaneceu calado. Prestava atenção na esposa, movendo-se de um lado para outro na cozinha. Ela era encantadora quando moça. Mas agora...
Pela tarde, esqueceu aberta a portinhola da oficina, e os filhos pequenos ali entraram para brincar, sujaram-se e puseram tudo em desordem. Enquanto, furioso, ele os empurrava para fora, lamentava-se: “É... não tenho dinheiro nem para montar uma oficina separada da residência”.
Mestre Schmerzen estava ranzinza e continuava a lamuriar-se. A vida lhe parecia insuportável! No fim da tarde, resolveu ir desabafar seus azares com o primo, dono da pequena cervejaria estabelecida a poucos metros da sapataria. Gorducho e bonachão, enquanto servia um caneco de cerveja bávara para outro freguês, o primo o aconselhou:
— Ora... Pare de reclamar, Schimmy! Você está vendo tudo “cinzento” hoje! Nesta vida, cada um precisa carregar a sua cruz. Carregue a sua com ânimo!...
O argumento do primo não o convenceu. Ele pôs o chapéu na cabeça, despediu-se e saiu, dizendo para si mesmo: “Cruz... Cruz... Sim, cada um tem a sua, mas a minha é tão pesada!” Resmungando saiu da cervejaria, resmungando entrou em casa, e à noite, já deitado, murmurava: “É verdade, cada um deve carregar sua cruz, mas Deus bem podia arranjar-me uma mais leve!”
* * *
Por fim, mestre Schmerzen adormeceu. No meio da noite, sentiu que o cobertor não protegia seus ombros, e, com os olhos ainda fechados, começou a tatear para encontrá-lo. Nada. Abriu os olhos, levantou-se e percebeu que não estava mais em sua casa. Aos poucos, a escuridão foi desaparecendo, e então ele viu à sua frente um jovem alto, vestido de branco e com grandes asas nas costas. Seria mesmo um anjo?
— Sim, sou o seu Anjo da Guarda. Deus ouviu as suas reclamações. Dê uma olhada ao redor.
O mestre sapateiro, então, observou que se encontrava no centro de um imenso vale cercado de altas montanhas. Ao longe, avistou algo parecido com um bosque, mas constituído de árvores e arbustos singulares: de tronco muito reto e aparentemente sem folhas.
— Não são árvores, Schmerzen. Vamos vê-las mais de perto.
Puseram-se a caminhar, e quando se aproximaram, notou que se tratava de... cruzes. Milhares delas. Talvez milhões. De todos os tamanhos e formatos. Claras, escuras. Umas de madeira, outras de metal, umas lisas, outras ásperas. Schmerzen ficou impressionado com a variedade: não havia sequer duas iguais, todas eram diferentes umas das outras. E cada uma trazia escrito o nome da pessoa a quem pertencia.
— Neste vale, Deus guarda a medida dos sofrimentos reservados por Ele para cada homem, cada mulher. É o Vale das Cruzes. E como você se queixou tanto do peso da sua, o Altíssimo lhe permite escolher outra. Vá... procure à vontade e pegue a que quiser.
Schmerzen ficou inseguro por um instante, mas, lembrando-se de todas as amarguras de sua vida, embrenhou-se por aquela floresta de cruzes. Evitou as grandes e vasculhou a região onde se encontravam as menores. Pegou uma: pareceu-lhe muito áspera. Experimentou outra: tinha as arestas muito agudas. Após algum tempo de procura, encontrou uma bem pequena, mas, sendo de chumbo, pesava mais que as outras. Por fim, quase tropeçou numa minúscula. Ergueu-a: não tinha mais de um palmo de altura, era de madeira muito leve, bem lisa e sem pontas. Oh, sem dúvida, a cruz ideal! Agarrando-a com firmeza, como se alguém pudesse querer apossarse dela, disse ao Anjo:
— Quero esta aqui!
— É mesmo esta? Pois bem, meu amigo... leia o que está escrito nela.
O sapateiro colocou-a bem diante dos olhos e, com espanto, leu o nome: Mestre Schmerzen! Essa cruz, a mais leve, a mais lisa, a menos incômoda de todas, era a sua, da qual ele tanto se queixava!
* * *
Um grito de vergonha e espanto saltou de sua garganta e... o despertou. Cheio de suor e com o coração disparado, mestre Schmerzen estava ainda deitado em sua cama. Levantou-se, foi correndo abrir a janela e exclamou, ao ver o resplandecente sol de primavera:
— Que dia bonito!
Mas então se deu conta de que era um dia exatamente como o anterior: o mesmo sol, a mesma primavera; em frente da janela, o filho mais velho, assobiando contente, descarregava mais alguns pacotes de couro. “Na verdade — pensou —, meu filho é dos poucos rapazes da cidade que têm emprego garantido”. O ruído das crianças brincando perto da oficina trouxe-lhe à mente outro raciocínio otimista: “Afinal, é uma grande vantagem trabalhar ao lado de casa, pois assim posso estar o dia inteiro junto à minha família”.
Da cozinha, subia o cheiro delicioso do café da manhã... E a voz da esposa:
— Schmerzen, meu bem... Venha logo, seus ovos mexidos vão esfriar!
“É... ela já não é mais a jovem de outrora — ponderou o mestre sapateiro —, mas é tão bondosa... E como cozinha bem!” Saindo da janela, percebeu que a pequena cruz estava sobre o criado-mudo. O Anjo ali a deixara, como lembrança...
Schmerzen tomou-a em suas mãos, olhando-a por alguns instantes, pensativo. Osculou-a, colocou-a reverentemente sobre a mesinha e, assobiando alegre, desceu para o café, e para continuar a vida.

Martha Lucía Ovalle - Revista Arautos do Evangelho n. 59 nov 2006

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A pedra no caminho

Desde que o rei ascendera ao trono, tudo corria bem naquele reino distante, outrora assolado por contínuas guerras.
O soberano era ao mesmo tempo forte e bondoso. Dominava como ninguém a arte militar e possuía tropas bem treinadas, mas preferia alcançar a paz através de amistosos tratados. Por isso, visando a glória de Deus e o bem do seu povo, havia assinado já acordos de cooperação com a maior parte dos estados limítrofes.
As aldeias do reino estavam em pleno desenvolvimento e os negócios com os estados vizinhos eram bastante prósperos. O clima ameno favorecia o plantio dos mais diversos vegetais, e até a natureza parecia estar ajudando a tornar aquela região semelhante a um paraíso.
Os habitantes eram laboriosos, solidários e piedosos. As igrejas estavam sempre cheias e os Sacramentos eram muito frequentados. Reinava entre todos um espírito de fraternidade cristã que fazia lembrar o mandamento novo de Jesus: “Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34).

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Os tesouros do Céu

Francisco Abdala era um próspero comerciante de tecidos do sul da Espanha. De antiga estirpe muçulmana convertida ao Cristianismo, destacava-se por ser homem piedoso e caritativo. Não tinha filhos, mas adotou suas três pequenas sobrinhas órfãs, das quais cuidava com carinho e solicitude.
As meninas adaptaram-se sem dificuldade ao novo lar. Elas recebiam uma educação primorosa, estudavam num bom colégio e, sobretudo, eram instruídas na Fé. Logo que lhes foi permitido, fizeram a Primeira Comunhão.
Com o passar dos anos, foi-se acentuando a diferença de caráter entre elas. Maria, a mais velha, afável e caridosa, estava sempre preocupada com os outros; Laura, a do meio, gostava de se enfeitar e chamar a atenção sobre si; e Catarina, a caçula, mostrava preocupante propensão para o egoísmo.
Um dia, Francisco chamou as três e lhes disse em tom paternal e solene:

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O preço de um resgate

Um pai de família, posto no terrível dilema de escolher entre salvar a vida de seu próprio filho, ou deixá-lo morrer afogado e salvar a de um estranho, tomou uma decisão heroica. Qual foi o resultado?
Era domingo, terminara a Missa. O zeloso sacerdote, muito estimado pelos seus paroquianos, convidou para vir à frente um ancião de aspecto venerável. Depois de apresentá-lo como o mais querido amigo de sua já remota mocidade, manifestou o desejo de que ele saudasse os presentes e lhes dirigisse algumas palavras que julgasse proveitosas para uma piedosa reflexão.
Os fiéis fitavam com curiosidade o idoso senhor, que se mostrava pensativo, simples e despretensioso. Este, após os costumeiros cumprimentos iniciais, disse-lhes:
“Eu quero contar-lhes um fato ocorrido há vários anos, a fim de tirarmos uma lição. Tenho certeza de que todos gostarão de ouvir esta narração.
“Um pai de família, seu filho adolescente e um amigo deste navegavam num barco pelo mar quando foram surpreendidos por violenta tempestade. Marinheiro experimentado, o pai tratou de regressar logo à praia. Mas era tarde... As ondas eram tão violentas que em pouco tempo ele perdeu o controle da embarcação.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Pincel de Deus

Deus quer se servir de nós como instrumentos para “pintar” seu rosto divino nas almas de nossos irmãos.
Imaginemos um pincel capaz de ver, pensar, querer e sentir — como o ser humano — e posto na mão de um grande pintor. Vendo surgir pouco a pouco na tela a obra-prima, ele certamente ficaria alegre por sentir-se um instrumento indispensável para a sua realização.
Pois bem, em relação a Deus, todos nós somos como que pincéis postos nas mãos do Divino Pintor, para a execução de sua obra nas almas. Não que sejamos instrumentos necessários — porque Ele pode fazer tudo sem auxílio de pessoa alguma — mas porque, em sua infinita Sabedoria, Ele deseja nossa cooperação.
Às vezes, Deus fala diretamente às almas, de forma irresistível, como a Saulo no caminho de Damasco.
Com frequência, porém, Jesus limita-se a sussurrar no fundo dos corações: “Volte-se para Mim... Veja, a felicidade não está no prazer pecaminoso, mas na prática da virtude! Pense na eternidade... Recorra à minha Mãe, Ela virá em seu auxílio.”
Infelizmente, a imensa maioria dos homens é surda, ou quase tanto, a esses insistentes apelos da graça. Mas Nosso Senhor, assim rejeitado, não desiste. Ele quer pintar em todas as almas a mais excelsa obra-prima que possa existir: o seu próprio rosto divino.
É na execução dessa sublime pintura que entra nosso papel de “pincel de Deus”. A todo momento, Ele solicita a colaboração de cada um de nós para sua grandiosa obra de santificação das almas.
Como podemos responder SIM a esse pedido?
De um modo muito simples, na rotina da vida diária. Em primeiro lugar, rezando, pois nada se faz sem a graça, em matéria de apostolado. Muito importante também é dar o bom exemplo, um dos mais eficazes convites à conversão; dizer, na ocasião certa, uma palavra de estímulo ou de consolo; dar um conselho oportuno; recomendar a leitura de um bom livro ou uma boa revista; convidar para a Missa, ou a recitação do Rosário. Enfim, até mesmo por um simples olhar podemos ser instrumentos úteis e conduzir a Deus, por meio de Nossa Senhora, nossos irmãos na Fé.

Se nos dispusermos a ser pincéis dóceis nas mãos do Divino Pintor, experimentaremos uma das maiores recompensas que se pode ter nesta terra: a alegria de ver a ação da graça purificando e transformando as almas daqueles que são objeto do nosso apostolado. E infinitamente maior será a recompensa que receberemos no Céu, por toda a eternidade!
Pe Francisco Teixeira de Araújo, EP - Revista Arautos do Evangelho n. 27. mar 2004

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pequenos sacrifícios...

Irmã Daniela Ayau Valladares, EP
Havia muitos anos que as Irmãs Marcelinas estavam estabelecidas na pitoresca Chambéry, bela cidade próxima aos Alpes franceses. Devotadas à educação cristã da juventude, davam formação às alunas externas, mas também tinham internato, para aquelas que viviam em lugares mais distantes ou queriam levar uma vida mais regrada.
Seu educandário era famoso em toda a Saboia pela qualidade do ensino, mas, sobretudo, pelo esmero com que as freiras procuravam conduzir as alunas pelas vias da virtude e a afetuosa disciplina com que lhes formavam o caráter.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O exemplo é o melhor dos mestres

Carlota Crippa
Das pequenas histórias que Dom Bosco contava para educar seus jovens, tiramos este breve conto.
Numa cabana em meio a um agradável bosque morava, com sua família, um velho camponês, alquebrado pelos anos. Quem sabe ele próprio a edificara, ou ao menos ajudara na sua construção. Mas depois ficara tão, tão velhinho, quase surdo, com pouquíssima visão, de joelhos trêmulos, que quase não servia mais para nada. Vivia ele, assim, vagando de um canto a outro da casa, solitário com suas recordações, sem ter com quem conversar nem com que se distrair.
Quando, à noite, todos sentavam-se à mesa para tomar um bom prato de sopa reforçada com uma farta fatia de pão, o pobre velhinho tremia tanto, tanto, que derramava mais sopa do que conseguia tomar. Sujava a camisa e a toalha. E logo a nora, impaciente e mal-humorada, zangava-se e lhe dizia palavras ásperas.
Um dia, o filho, irritado ele também, com as debilidades senis do pai, cedeu às insistências da esposa. Obrigaram o velho a, daí em diante, fazer as refeições sentado num canto atrás do fogão, comendo numa tigela de barro. E davam-lhe tão pouca coisa que o coitado estava sempre com fome...
De seu canto, com sua pouca visão, ele levantava os olhos para espiar a família reunida à mesa. Com a mão trêmula, levava a colher à boca e engolia a sopa misturada com suas lágrimas.
Certa vez, a mão tremeu-lhe tanto que a tigela caiu e se quebrou. A nora repreendeu-o com brutalidade. Ele, na sua triste situação, nada pôde responder. No dia seguinte, ela comprou-lhe uma gamela de madeira, das mais ordinárias que havia na vendinha do carpinteiro, para substituir a tigela de barro.
O neto do velho, um menino vivo, de seus oito anos, costumava brincar próximo ao fogão. Gostava de correr pelo bosque e construía seus próprios brinquedos com os galhos de árvore e pedras que recolhia pelo caminho. Certo dia, ele parecia estar brincando com uns paus, mas fazia algo que não era um brinquedo. Intrigado e curioso, seu pai perguntou-lhe:
— O que você está fazendo, meu filho?
— Estou fazendo um cocho, papai, para o senhor e a mamãe comerem quando ficarem velhinhos — respondeu o rapaz.
Marido e mulher se olharam por algum tempo e desataram a chorar. Lembraram-se, então, da frase do Eclesiastes, que reflete o 4º mandamento: “O que honra seu pai encontrará alegria nos seus filhos” (Ecli 3, 6). Deram-se conta de que as crianças prestam muita atenção no que vêem, analisam e tiram conclusões... E de que o exemplo — bom ou mau — é o mais poderoso dos mestres.
Resultado, atiraram ao fogo a gamela de madeira e trouxeram o velhinho de volta para seu lugar de honra à mesa, dando-lhe uma bela tigela nova e sempre cheia de sopa.
A nora fez uns grandes guardanapos para ele e, daí por diante, quando a trêmula mão derramava a sopa, fingiam não ver e nada diziam.

A boa ordem familiar voltou àquela cabana. E o coração do velho encheu-se da alegria de sentir-se novamente estimado e respeitado por aqueles a quem amava e por quem havia trabalhado e sofrido ao longo de sua vida. O exemplo dado nas boas ações tem muito mais força do que qualquer discurso, por mais erudito que seja... 
Revista Arautos do Evangelho n.15. março 2013