Mostrando postagens com marcador historias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador historias. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de março de 2017

Uma ponte para o Céu

Aproximava-se a solene festa de Primeira Comunhão no colégio das Irmãs da Caridade. Apressavam-se as religiosas na confecção dos trajes das crianças e nos ­bordados das toalhas e alfaias litúrgicas que seriam utilizados em tão importante celebração. Muito ocupada e diligente, a bondosa irmã Estella preparava as crianças para o Banquete Celestial. Ela podia se considerar uma mestra feliz: seus alunos mostravam-se zelosos e entusiasmados pelas verdades da Fé, e a devoção refulgia em seus inocentes corações.
Um, porém, a contristava: Lucas, o mais travesso do grupo e muito preguiçoso no cumprimento dos deveres. Apesar de ser piedoso e ter bom coração, ele passava o tempo todo reclamando dos sofrimentos, incômodos ou aborrecimentos do dia a dia. De manhã, quando sua mãe ia acordá-lo, enrolava-se nos cobertores e continuava dormindo. Intimado a levantar-se, fingia com grande talento indisposições e moléstias que lhe angariassem alguns minutos extras na cama...
Na escola, nunca apresentava os trabalhos com pontualidade e fugia das provas sempre que podia. Para evitar uma delas, chegou a simular uma misteriosa paralisia muscular que lhe impedia de segurar o lápis nas mãos... O professor decidiu, então, tomar-lhe a lição oralmente. No entanto, foi uma tentativa frustrada, pois ele aparentou sentir uma terrível dor nos joelhos por ficar de pé durante a arguição, e queixou-se de agudas pontadas na coluna quando recebeu ordem para sentar-se!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O prêmio da inocência

Quando o dia declinava em Jerusalém, Susana voltava do campo, seguida fielmente pelo rebanho de seu pai, Simeão. Ao alcançar o aprisco, as primeiras estrelas já apareciam cintilando no firmamento. Deixando as ovelhas seguras, sentou-se um pouco ao relento, a fim de contemplar os astros. Chegara o melhor momento do dia!
Gostava de imaginar que as estrelas fossem pequenos diamantes, como os que vira certa vez coruscar nas suntuosas vestes do sumo sacerdote. E pensava maravilhada: "Como Deus é perfeito! Até o céu Ele quis enfeitar. Quando o azul celeste se obscurece, a ponto de se tornar quase negro, Ele o enche de diamantes...".
Quanto desejava contemplar de perto ao menos uma estrela! E seguia excogitando como Deus, o Todo-Poderoso, devia ser luminoso... Certamente muito mais que as estrelas! Mas estas serviam para, pelo menos, dar uma ideia de sua grandeza.
Naquela noite, porém, ela notou que os astros brilhavam com uma força como jamais vira. Seu fulgor os tornava tão próximos, que tinha a impressão de poder tocá-los com as mãos.
- Será que subindo em um lugar alto consigo apanhar uma estrela? Como gostaria de ter uma... - dizia de si para consigo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Um pescador pecador...


O alvorecer em nossa cidadezinha da costa mediterrânea espanhola era naquela manhã distinto dos demais. Todos os habitantes o sabiam... Nós, ainda crianças, acordáramos curiosos e abríramos a fresta de uma das janelas do quarto que descortinava o belo panorama marítimo, logo nos deparando com o Astro Rei. Solene e majestoso, ele deslizava seus raios entre as ramagens das palmeiras para projetar-se sobre a imensidão das águas, tornando-as ora róseas, ora douradas, pelas tonalidades da aurora. Sim, algo diferente pairava no ar, quebrando a costumeira monotonia. Uma alegria saltitante unida a certo bem-estar sereno fazia-se sentir nos corações, porque era dia de Corpus Christi, tão solenemente comemorado junto ao Mar Mediterrâneo.
À medida que a cidade despertava, começavam também os preparativos para a procissão. As crianças corríamos de um lado para outro, buscando as mais variadas flores, enquanto as senhoras se preocupavam em pendurar tapetes nas janelas e sacadas de suas respectivas casas, e em cobrir com folhas de murta e pétalas de rosa as ruas principais. Os homens, juntamente com o padre Manuel, nosso pároco, preparavam os locais onde seriam erigidos pequenos altares nos quais o Santíssimo Sacramento haveria de "descansar" ao longo do percurso. O ambiente era de festa e de sincera religiosidade, e todos os habitantes nos reuníamos em função de um mesmo objetivo: tornar a cerimônia o mais bela possível.
Um, porém - já bem conhecido de todos -, não tinha as mesmas disposições: Vicente, o pescador. Apareceu ele em meio aos preparativos, sombrio e mal-humorado:
- Bom dia, senhor Vicente! Chegou tarde, ouviu? - disse-lhe uma senhora, com ironia - O que lhe aconteceu? Perdeu a hora? Venha nos ajudar!
- Ajudar? Olha aqui, eu já tenho muito trabalho - respondeu ele, resmungando - Já sabes que não sou dessas coisas! Estou saindo para pescar... - Pescar? É o que o senhor faz todos os dias! - retrucava-lhe outra - Hoje é uma ocasião especial!
- Eu já disse que vou pescar! - continuava ele, arrastando as redes que carregava no ombro - O mar hoje promete muito! Não vou perder esta oportunidade...
Vicente não era fácil de convencer... Lembro-me de que todos nos entreolhamos, meneando as cabeças.
- Deixa, Amparo. Ele nunca vai à igreja. Não será hoje que mudará de ideia.
- Pois tenho fé em que acabará por fazê-lo!
- Amém! - respondemos todos.
- Que Deus a ouça, Maria! - concluiu o padre Manuel. E continuamos os preparativos.
A Missa seria às três da tarde, seguida da solene procissão. Às duas e meia todos estavam a postos, inclusive a banda, que aproveitava os últimos minutos para terminar de afinar seus instrumentos. Com o repicar dos sinos da torre da igreja iniciou-se a celebração. Que paz, que bênção e que alegria reinavam então! Ainda hoje me lembro de tudo como se tivesse acontecido ontem!
Entretanto, o mais impressionante foi o que se passou logo depois... No momento exato em que o Divino Salvador cruzava os umbrais do templo, escondido sob as Sagradas Espécies e conduzido pelo padre Manuel num belíssimo ostensório, voltava Vicente de suas aventuras em alto- mar. A atmosfera séria produzida pelo insigne ato de piedade arranhou a pobre alma ácida e fria do pescador. Dirigindo-se ao Santíssimo, teve ele o infame atrevimento de dizer:
- Onde já se viu? Tu não podes andar sozinho? Com a idade que tens e ainda precisas ser carregado nos braços?!
Tamanha insolência não podia ficar impune! Naquele instante, a resposta do Senhor Onipotente se fez visível aos olhos de todos: uma das pernas do blasfemador se infeccionou, vendo-se dois homens obrigados a sair da procissão para socorrê-lo, pois não mais podia manter-se de pé.
Deus era levado pelo sacerdote por amor, e ele - na flor da juventude e do vigor de sua saúde - era transportado numa maca, para sua humilhação! Com urgência tiveram que amputar-lhe o membro acima do joelho, para evitar uma gangrena mortal; mas, por mais que cortassem, esta não parava de subir e subir, até que se tornou impossível deter sua marcha fatal...
A lição havia sido severa, todavia justa e, sobretudo, eficaz. O mesmo Jesus que séculos antes "passou fazendo o bem" (At 10, 38), devolvendo a vista aos cegos e a agilidade aos paralíticos, perdoando os pecados e transformando os corações mais empedernidos, soube também restaurar a saúde espiritual do nosso Vicente, tirando-lhe a vitalidade do corpo.
Quando, poucos dias mais tarde, o padre Manuel me convidou para acompanhá-lo a levar o viático ao doente, deparei-me com a fisionomia conhecida do pescador quão mudada! Embora seus olhos ardessem pela febre e o mal-estar, muito mais lhe abrasava o coração de verdadeiro arrependimento pelo horrível pecado cometido. Que descomunal diferença! Aquele homem arrogante e incrédulo havia aprendido, pelo sofrimento, a rezar e voltar-se para Deus.
Como gostaria de poder mostrar a todos os pecadores do mundo, até aos mais endurecidos, esta comovedora cena que ficou tão claramente gravada no meu interior... Seu último adeus para esta vida ainda foi um ato de agradecimento a Jesus-Hóstia que, num milagre de infinito amor, o salvara das chamas da condenação, abrindo-lhe as portas da bem-aventurança eterna!
Revista Arautos do Evangelho  Agosto-2014


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Apenas água com sal...

A multidão alvoroçada se reunira na praça e todos comentavam algo inusitado: ninguém mais conseguia pescar!
- Acaso esgotaram-se os peixes do mar? - perguntava um.
- Um maremoto se avizinha? - interrogava outro.
- Os tubarões devoraram os cardumes? - se aventurou a indagar uma criança...
Dúvidas como estas assaltavam não poucos moradores da aldeia, cujo sustento dependia da pesca, especialmente abundante naquela região. Entretanto, havia semanas que os pescadores lançavam redes e anzóis, sem resultado.
Enquanto os habitantes tentavam entender o motivo da tragédia, reuniam-se no escritório da basílica o pároco e seus assistentes. Debatiam eles sobre a melhor forma de resolver outro problema: afervorar o povo, que a cada dia se afundava mais na preocupação com o dinheiro e as coisas materiais.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Deus pode ser enganado?

Nos tempos medievais floresciam as catedrais e os povos caminhavam à luz do Evangelho. Ao sul da França viviam os Clochers, família dotada de muita arte. Dedicavam-se eles à complexa tarefa de fundir sinos. Conheciam os metais em seus mais específicos aspectos e sabiam as ligas, a espessura, o peso e a dimensão da boca ou do badalo de cada sino, para que tivesse o timbre desejado e tocasse a nota que lhe correspondia. Não só faziam sinos para as igrejas com um único campanário, como eram especialistas em carrilhões.
Os Clochers se ufanavam de ser descendentes do patriarca que, havia alguns séculos, servira a Carlos Magno, o ilustre imperador do Sacro Império, motivo pelo qual a fama de sua linhagem se espalhara pela Europa.

Louis Clocher pertencia à décima segunda geração e herdara não só o talento e a virtude de seus ancestrais, como também a tradicional oficina. Tivera três filhos, aos quais educara eximiamente. Pierre, o caçula, nascera-lhe na velhice e era seu preferido; Jacques, o do meio, era muito reto, mas um tanto desastrado com os sinos... Ambos eram piedosos como o pai e se dedicavam ao campo. François, o mais velho, possuía o dote artístico dos avós e, desde a infância, ajudava o pai, demonstrando muita aptidão para o ofício. Porém, não tinha suas qualidades sobrenaturais, pois não gostava de rezar nem de assistir à Missa...
Debilitado em sua saúde e pressentindo a morte próxima, o velho Clocher mandou chamar um sacerdote a fim de receber os Santos Óleos. Revigorado por tal consolo espiritual, chamou junto a si os filhos a fim de dar-lhes suas últimas recomendações.

sábado, 12 de dezembro de 2015

O QUE DEUS FAZ É PELO MELHOR

Havia um médico, homem bom e sem malícia, na corte de um poderoso rei. Ao visitar Sua Alteza, ainda que o achasse afligido com qualquer trabalho ou dor, não mostrava entristecer-se. Após aplicar os remédios que entendia lhe eram necessários, consolava o rei, dizendo que não se agastasse e sofresse seu trabalho com paciência, porque tudo o que Deus faz é pelo melhor.
Aconteceu que morreu o príncipe herdeiro do reino, e o rei ficou muito triste, encerrando-se em seu castelo.
 Querendo o médico visitá-lo e consolá-lo, como todos faziam, o fez com as palavras de seu costume, dizendo-lhe:
— Senhor, não vos agasteis tanto, a ponto de prejudicar a vossa pessoa. Tudo que Deus faz é pelo melhor.
O rei não teve paciência em ouvir este dito em tal ocasião, e pensou:
— O que poderia ser pior para o príncipe, meu filho, do que morrer? Vou me vingar deste médico insolente. Vejamos se lhe será melhor a morte que lhe mandarei dar do que deixá-lo viver.
Chamou dois homens, e ordenou:
— Ide atrás do médico que acabou de sair, e dizei-lhe que quereis dar um recado meu. Quando estiverdes diante dele, matai-o, por ordem minha. Não temais justiça.
Os homens foram à casa do médico, e achando a porta da escada fechada, gritaram que traziam um recado do rei.
Alvoroçado com isto, o médico colocou o capuz de dó e desceu para abrir a porta. Mas, com a pressa de descer, tropeçou no capuz de dó e tentando agarrar-se no corrimão da escada, caiu e quebrou a perna. Ouvindo seus gritos de dor, os servidores da casa vieram e o tiraram dali, levando-o para a cama. Pediu, então, à dona da casa que explicasse aos emissários do rei o que acontecera, e eles voltaram para explicar tudo ao rei.
O médico permaneceu mais de seis meses na cama. Quando sarou, levantou-se e foi mancando à presença do rei. Vendo-lhe o defeito, o rei quis consolá-lo, mas o médico se adiantou e disse:
— Não me aborreço com isso, porque o que Deus faz é pelo melhor.
Ouvindo isso, o rei concluiu que ele aplicava essa norma sábia também a si próprio, e o teve dali por diante por bom homem. Perdeu o rancor que contra ele tinha, e viu também que na verdade foi melhor ele ter quebrado a perna, pois do contrário teria morrido.

Adaptado "Contos Tradicionais do Povo Português . Theophilo Braga. - Magalhães e Moniz Editores, Porto

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Um misterioso amigo

No fim da floresta, já no sopé dos Alpes, viviam o Sr. Hans Holzfäller, um lenhador aposentado, e o pequeno Karl, seu neto de apenas dez anos. A família fora outrora numerosa, mas, passados os anos, ficara reduzida apenas a eles dois. Por isso, Hans decidiu deixar a velha cabana onde moravam. Pensou ele: “Este lugar é muito isolado, não é prudente vivermos tão afastados. Vou fechar nosso velho lar e mudar-me para alguma pequena casa perto da vila. Talvez no futuro alguém de nossa estirpe resolva voltar a viver aqui”.
Assim, começou a organizar a mudança e a fazer os últimos reparos antes de partirem. E numa daquelas tardes subiu ao telhado para verificar vazamentos. Então se deu o desastre: escorregou, caiu de grande altura e quebrou a perna de um modo bem feio. Atraído pelo grito do avô, Karl veio correndo ver o que se passara. Hans cobriu a perna com o casaco, para o sangue não assustar o garoto. Esforçando-se por conter a dor, disse pausadamente ao menino:

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Abelhas adoradoras de Jesus

Um crime terrível abalara aquela simples e devota aldeia. Toda a população estava indignada com o roubo sacrílego. Dois homens encapuzados, de fala grotesca e modos selvagens, invadiram a igreja matriz, depois da última Missa do dia, e roubaram a Hóstia grande, reservada para as Adorações solenes que se realizavam todas as manhãs.
E o pior de tudo é que, fugindo com espantosa rapidez, conseguiram embrenhar-se na mata próxima, na qual desapareceram.
Durante dias, todo o povo, desconsolado, além de fazer vigílias em desagravo pelo grande sacrilégio, vasculhou em vão a mata, na tentativa de recuperar a Sagrada Partícula. Nem mesmo o sr. Antônio, velho apicultor que conhecia cada palmo daquelas terras onde nascera e passara toda a sua vida, conseguiu encontrar sequer alguma pegada dos fugitivos.
O tempo passava e o povo, enlutado, temia algum castigo para a aldeia. Todos redobraram as orações, a frequência à Santa Missa e a participação nos outros atos de piedade da paróquia. O zeloso pároco chegou até a pensar que talvez a Divina Providência tivesse permitido o terrível acontecimento para afervorar toda aquela gente.
Também o sr. Antônio estava indo à Missa todos os dias, apesar das dificuldades: vivia longe, nos confins da aldeia, junto à mata por onde fugiram os sacrílegos ladrões; além disso, era idoso e de saúde delicada.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Assim nos trata Deus...

Naquele ano, fortes temporais castigaram a região montanhosa onde viviam os avós de Caio. Ali predominavam pequenos vinhedos e vinícolas artesanais. Os frutos colhidos tinham um sabor todo especial, devido ao clima e à composição do solo, fazendo com que a produção chegasse até à capital e crescesse a fama de seus vinhos, de singular degustação. Com o mau tempo, porém, a safra se prejudicara e, por conseguinte, a preparação da bebida, levando muitas famílias a passarem sérias dificuldades.
Caio tinha encanto pela propriedade dos avós e, a cada ano, quando terminavam as classes, fazia as malas para viajar às montanhas e passar as férias com eles, a quem tanto queria. Dona Ana e o senhor Alfredo sempre o esperavam de braços abertos, pois o neto era a alegria da casa. Muito vivo, logo cedo ele acompanhava o avô na lida do campo, fazendo festa para cada cacho de uva que conseguia colher, ficando nas pontinhas dos pés, e se não Os frutos colhidos naquela região tinham um sabor todo especial fosse o cuidado do amável e atento ancião entraria lagar adentro, para também espremer as uvas. Ao entardecer, todos se reuniam no salão, patrão e empregados, onde rezavam juntos o Rosário à Virgem Santíssima, e à noite, depois do saboroso jantar feito em fogão a lenha, a prosa se estendia e dona Ana contava-lhe belas histórias, enquanto tricotava.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A oferta mais agradável a Jesus e Maria

O frio ainda estava penetrante e a neve não cessava de cair naquele fim de inverno europeu, mais rigoroso que de costume. No entanto, a severidade do clima não impedia a pequena Inês de sair de sua casa, situada na encosta de uma íngreme montanha, para ir assistir à Missa na aldeia vizinha. Era o dia 3 de fevereiro, quando todas as crianças da região recebiam lindos papéis dourados, onde anotavam os pequenos sacrifícios que ofereciam a Nossa Senhora de Lourdes, durante sua novena.
Nesses dias, todos se empenhavam em participar da Santa Eucaristia, e quanto mais se aproximava o dia da festa, a alegria da meninada tornava-se mais intensa. Ao mesmo tempo, suas listas iam engrossando com as mortificações que faziam, e que para elas constituíam verdadeiros holocaustos, como privar-se de chocolate ou de doce, fazer os deveres da escola sem resmungar ou levantar-se cedinho de um salto só, apesar de tiritarem de frio e os cobertores quentinhos convidarem a um pouquinho mais de sono...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Quem sabe se ele volta...

Uma tempestade se formava no horizonte. Aqueles dias haviam sido especialmente quentes no sufocante verão japonês. As plantações estavam secas e a chuva seria bem-vinda. Porém, a borrasca que se aproximava mostrava-se ameaçadora. E o que se passava na natureza parecia simbolizar o que sucedia com a família Shinju...
Pertencia ela a uma antiga linhagem de comerciantes de pérolas, conhecida em todo o país por sua honestidade. O senhor Akira Shinju era exímio pai e bondoso para com seus empregados, embora soubesse ser justo e severo quando era necessário. Presidia a sociedade familiar que cultivava as famosas pérolas, sendo querido por todos. Sua senhora, dona Kazumi, não se deixava vencer em generosidade, sobretudo com os mais miseráveis. Residiam em uma casa palaciana herdada de seus antepassados, a qual era o orgulho do casal.
Entretanto, uma sombra pairava sobre a família...
Apesar de ser muito numeroso o clã Shinju, o senhor Akira e dona Kazumi tinham um filho único, Fumiko, a quem haviam dedicado todo o seu afeto, esforçando-se muito por colocá-lo no caminho do bem. Mais do que seus mestres, ele tinha nos pais um exemplo a seguir. Quando criança, dir-se-ia que nunca deixaria de ser um digno membro de sua estirpe: dedicado e obediente, sua alegria estava em adivinhar a vontade paterna e cumpri-la, antes mesmo de receber alguma ordem.
Infelizmente, o menino crescera em estatura, mas não em virtude... A mãe começou a notar, desconsolada, que seu comportamento se distanciava, a cada dia, das vias da retidão. Em casa, tornou-se silencioso e indiferente. Muitas vezes ela tentou abrir-lhe os olhos, sem consegui-lo.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Poderosa intercessão

O casal Gastinelli não podia esconder sua alegria, pois a jovem esposa logo daria à luz um menino, seu primeiro filho! Giacomo já havia contado aos seus colegas padeiros a boa-nova, e Mirella também comunicara à diretora do asilo, onde trabalhava como cozinheira dos velhinhos.
Entretanto, algumas preocupações da vida doméstica pareciam querer toldar este contentamento. Como eram pobres, a chegada de mais um membro para a família significava gastos maiores, e esse tema passou a figurar como o centro de muitas das conversas entre Mirella e o esposo. A casinha onde moravam, nas proximidades da Igreja de São Francisco Xavier, era alugada de um proprietário exigente, com prazos fixos de pagamento, e a futura mãe não estava podendo trabalhar naquelas semanas, ficando aflita com o que poderia acontecer.
— Giacomo, faltam poucas semanas para vencer o aluguel de nossa casa. Seu trabalho não rende muito e temos apenas o suficiente para nossa despensa não ficar vazia... Precisamos encontrar uma solução! 

domingo, 7 de junho de 2015

Uma carta para Deus

Jorginho sempre fora um bom menino, educado e obediente. Havia perdido os pais quando ainda era um bebê e vivia com a avó materna, dona Clara, quem cuidava do pequeno com todo carinho. Ela fazia doces, salgadinhos e bolos para vender, sendo o meio de sobrevivência dos dois, e moravam em uma casinha humilde, mas própria.
Todos na pequena cidade os conheciam, pois, bem cedinho ia a piedosa senhora à Missa, levando pela mão o netinho, desde que aprendera a andar. Ele ainda não fizera a Primeira Comunhão, no entanto, iniciara as aulas de catequese antes mesmo de principiar os estudos escolares. Durante a Missa, ficava quietinho e prestava muita atenção em todos os movimentos do sacerdote, sobretudo na hora da Consagração, quando, de joelhos e com as mãozinhas postas, fixava seus olhos vivos e escuros na Sagrada Eucaristia e dizia baixinho, conforme aprendera com a vovó:
— Meu Senhor e bom Deus!

sábado, 30 de maio de 2015

Um criminoso entre 56 inocentes

A leitura da carta do rei deixou Genaro imerso em graves considerações. Que difícil incumbência lhe dava! Ser rígido e misericordioso ao mesmo tempo... e logo na prisão de Castel dell’Uovo!

Conta-se que no antigo Reino de Nápoles, muito antes da invasão das tropas francesas, morrera o grão-conselheiro que, com sabedoria, havia auxiliado o soberano a governar a nação, e este hesitava sobre quem nomear para substituí-lo.
Inclinava-se para um amigo seu, chamado Genaro, experiente juiz, homem probo que não titubeava em testemunhar publicamente sua fé. O importante cargo, porém, era cobiçado por outras personalidades da Corte, e o rei precisava evitar entrechoques partidários. Procurando encontrar um meio de nomear Genaro sem causar ressentimentos nos opositores, teve certo dia uma idéia genial: “Genaro é sem dúvida o mais competente de todos os magistrados do Reino. Vou propor-lhe um caso bem intrincado, e tenho certeza de que ele o resolverá. Demonstrada publicamente sua capacidade, ninguém poderá queixar-se de ser ele nomeado grão conselheiro...”
Tomada essa resolução, o soberano enviou a Genaro uma carta:

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Incêndio na Catedral!

A cada quinta-feira, a Catedral ficava repleta desde cedo, pois o Dia Eucarístico era celebrado com muita piedade pelos fiéis daquela cidade. De manhã, Dom Matias, o Bispo, presidia a Santa Missa e expunha o Santíssimo Sacramento no belo ostensório dourado e adornado com pedrarias, revestido de uma capa de asperges toda bordada, sob uma cortina perfumada de incenso e ao som dos cânticos e do bimbalhar dos sinos.
Durante todo o dia os fiéis vinham visitar Jesus Hóstia, para a Ele agradecer tantos favores recebidos, apresentar-Lhe novos pedidos, depositar a seus pés sofrimentos e aflições ou apenas para fazer-Lhe companhia, em profunda adoração.
Ao cair da tarde, Dom Matias abençoava solenemente o povo que enchia as naves do templo e até mesmo o átrio externo da suntuosa Catedral.
— “Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar”...

segunda-feira, 16 de março de 2015

Um auxílio de São José

A resposta de São José

Catarina, uma jovem e piedosa costureira, sempre tivera muita devoção a São José. Desde bem pequena, sua avó lhe ensinara que o grande Patriarca da Igreja velava, com carinho, pelas necessidades espirituais e materiais dos que a ele recorressem, pois fora o guardião e ecônomo da Sagrada Família. Na igreja de sua pequena cidade, havia uma bela imagem do santo, a quem ela visitava todos os dias, depois de assistir à Missa, com muito recolhimento e fervor.

Sua família era simples e muito religiosa. A mãe ficara viúva cedo e, por isso, viviam as duas com a avó, e se mantinham à custa das costuras de ambas. Ainda menina, habilidosa e inteligente, aprendera com elas a costurar e a bordar, e o fazia com perfeição. Trabalhava em um ateliê de alta costura e era a melhor profissional do lugar. Dona Marieta, proprietária do estabelecimento, a estimava muito e reconhecia seu talento.

Além de atender aos clientes com muita educação e cordialidade, não deixava de manter uma prosinha com eles, contando histórias dos santos e animando-os na Fé. Por isso, muitos a faziam de confidente, pois ela ouvia seus problemas e dificuldades com interesse e dava-lhes bons conselhos, não sem deixar de recomendar muito amor a São José.
Porém, precisou diminuir um pouco o trabalho, por uma súbita doença da avó. Dedicando-se a ela completamente, não teve outro remédio senão abandonar o emprego, ficando como sua enfermeira particular. A pobre senhora teve uma enfermidade um tanto longa e dolorosa, resultando no fim de todas as economias da família. As costuras da mãe já não bastavam para tudo... Acabaram ficando com várias dívidas para pagar.
Afinal, tendo-se recuperado a boa anciã, Catarina tentou voltar ao trabalho. No entanto, no ateliê já haviam ocupado seu lugar e precisava ficar em uma longa fila de espera. A senhora Marieta, por mais que a considerasse, era uma mulher de negócios e não estava disposta a contratar mais alguém, sem necessidade, e tampouco iria despedir a nova funcionária sem justa causa. Como a cidade era pequena, eram poucas as opções para a jovem.
Pensou, então, em fazer costuras particulares, mas ia ser mais difícil, porque os clientes continuavam a buscar o ateliê. Sua única saída era voltar para lá, pois precisava pagar as dívidas e sustentar a casa. Contudo, como seria aceita de volta? Não queria prejudicar a nova costureira, pois deveria também necessitar daquele trabalho...
Vendo-se em tamanha dificuldade, Catarina foi à igreja e pôs-se de joelhos diante de São José, pedindo-lhe que não lhe faltasse nessa emergência. De repente, teve uma inspiração e voltou correndo para casa... 
A moça tinha uma pombinha de estimação, muito alva e mansa, com quem brincava e se distraía. Era tão afetuosa com o bichinho, que a pomba costumava fazer seus passeios aéreos todos os dias e voltava tranquilamente, à tarde, sem jamais se perder. Chegando em casa, afogueada pela corrida, pegou um papelzinho onde escreveu um bilhete. Pegou a pomba e amarrou-o com cuidado na patinha. Soltando-a, no ar, disse:
— Voe, minha pombinha, e leve esta mensagem a São José.
E ficou tranquila, na certeza daquela mensagem urgente cruzar os céus e chegar até o Santo Patriarca. Mais tarde, quase ao entardecer, a pombinha regressou para casa, sem o bilhete em sua patinha...
A resposta de São José não se fez esperar por muito tempo!
No dia seguinte, bem cedinho, dona Marieta tocava à porta da casa da jovem, perguntando por ela. Depois de cumprimentá-la, foi logo dizendo:
— Catarina, venho aqui tão cedo porque preciso de seu serviço ainda hoje! 
Então narrou-lhe o acontecido. Naquela mesma manhã, antes do raiar do dia, havia recebido a visita de um venerável ancião, encomendando-lhe algo muito importante, de parte da senhora mais rica da cidade vizinha. Queria ela uma série de bordados para decorar sua nova casa, bem como o vestido de aniversário de sua filha, pois esta completaria quinze anos em pouco tempo. Entretanto, fazia questão do trabalho ser feito por Catarina pois havia tido notícias de ser ela a melhor costureira e bordadeira da região. Como a dona do ateliê afirmasse já não mais contar com seu trabalho, o ancião disse que então levaria o material que trazia de volta, pois havia recebido recomendação expressa a esse respeito.
Dona Marieta, percebendo valer a pena o negócio para o seu renome e o de seu ateliê, não teve dúvida em afirmar ao respeitável senhor que a moça retomaria suas atividades ainda naquele dia. Com isso, ele havia deixado os tecidos e os desenhos, segundo os quais deveriam ser executados os trabalhos, e se retirou. E ela ali estava a suplicar-lhe para retomar o emprego.
Não podendo mais conter as lágrimas de emoção, contou para sua patroa o que fizera na tarde anterior. Como havia chegado rápido a resposta de São José! Dona Marieta também se emocionou e quis acompanhar sua funcionária e amiga à igreja, para onde se dirigiu com a mãe e a avó a fim de agradecer a seu santo protetor tão grande benefício.
O fato correu pela vizinhança, fazendo crescer enormemente a devoção de todos, e uma Missa solene foi encomendada por Catarina, em ação de graças pelo auxílio do ilustre padroeiro. Por ocasião de sua festa, que não demorou muito a chegar, ruas e praças se engalanaram para celebrar o grande Patriarca da Igreja, na certeza de nunca faltar sua ajuda a todos os que a ele recorrem com amor e confiança, e deram-lhe o título do patrono da cidade.
Revista Arautos do Evangelho - março 2012


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O aleijado vai ao Papa

Arrastando-se com dificuldade e marcando caminho com o sangue que escorria de suas feridas, chegava o pobre Gilla às portas da catedral de Londres. Com chuva ou bom tempo, ele jamais faltava à Santa Missa, porque sua fé era maior que seus tormentos. Ele nascera com os nervos atrofiados, e ademais sofria uma terrível doença de pele. Não tinha como ganhar o pão e nem um parente próximo que o ajudasse.
Num dia solene, Gilla viu o celebrante subir ao altar com belos paramentos brancos, enquanto o coro cantava em gregoriano “Tu es Petrus”. Era o dia vinte e dois de fevereiro, festa da Cátedra de Pedro. No sermão, o pregador discorreu longamente sobre o poder das chaves conferido ao Papa pelo Divino Mestre. O pobre homem a tudo assistia com muito fervor e atenção. Terminada a cerimônia, despediu-se da maternal imagem da Virgem que ficava na lateral e saiu meditando:
— Que beleza! Hoje festejamos o doce Cristo na Terra! Quantos não ficaram curados só por terem sido banhados pela sombra de Jesus! Se eu vivesse naquela época... mas Ele indo para o Céu, deixou um representante entre nós e lhe entregou as chaves do Céu e da Terra... Quem sabe se indo até Roma não consigo do Papa o milagre de minha cura?
Animado por essas reflexões, conversou com o pároco e algumas pessoas piedosas de Londres, conseguindo que o colocassem em um barco com destino à França. “De lá — pensou ele — Deus dará um jeito de me conduzir até Roma”.
Desembarcando na França, passou o dia rezando e pedindo por caridade que alguém o levasse até a Cidade Eterna.
Após três dias de intensa oração e frustradas tentativas, passaram perto dele uns mercadores que partiam de volta à Itália, depois de terem feito um bom negócio. Vendo o pobre chagado pedir com tanta insistência e pelo amor de Deus que o levassem até o Papa, aceitaram transportá-lo em sua carroça, vazia pela venda das mercadorias.
Foi uma longa e penosa viagem. Cada solavanco do veículo nas precárias estradas lhe provoca uma terrível dor. Resignado e contente, ele ofereceu tudo à Santíssima Virgem, e pôs suas esperanças no tão ansiado encontro com o Papa.
Chegando a Roma, ficou atento à espera de uma oportunidade para se aproximar do doce Cristo na Terra. Numa solenidade em que o Sumo Pontífice sairia em procissão pelas ruas, o piedoso mendigo colocouse em uma esquina, bem próximo do local por onde ele passaria. O Papa, ao ver o pobre chagado, encheu-se de compaixão. Mandou que o aproximassem e, como um verdadeiro pai, lhe perguntou:
— Meu filho, o que desejas?
— Venho de Londres, Santidade, implorar-vos a cura. Desde criança tenho os membros atrofiados e ademais sofro esta terrível doença.
— Confiança! Tens no teu país um piedoso monarca, o qual eu estimo muito. Vai e pedelhe que te leve montado em seus ombros do grande palácio de Westminster até a Catedral. Deste modo eu garanto que Deus fará o milagre.
A Providência pedia àquele homem mais uma prova de fé. Empreender de volta toda a difícil viagem, no mesmo estado de invalidez, e se apresentar ao rei para fazer essa proposta... Mas ele não questionou, não reclamou e, de novo, foi pedindo, ora a estes, ora àqueles, que o transportassem cada trecho do caminho.
Ao fim de mil aventuras e sofrimentos, conseguiu o mendigo chegar à capital da Inglaterra. Foi se arrastando até as portas do palácio e disse trazer uma mensagem do Papa. Os guardas reais, que já pensavam em afastá-lo, resolveram antes perguntar ao rei Eduardo, o Confessor:
— Majestade, está aí fora um mendigo de horrível aspecto e coberto de chagas, que insiste em falar convosco. Afirma ter uma mensagem do Papa.
— Façam-no entrar. O que é o rei senão o pai dos pobres e o protetor dos débeis?
Introduzido o mendigo na nobre sala do palácio, deparou com o rei em toda sua grandeza sentado no trono com o diadema real. Era resplandecente sua majestade e, ao mesmo tempo, sua bondade e afabilidade.
O mendigo fez uma reverência e com toda confiança disse ao rei:
— Senhor, acabo de chegar de Roma, onde o Papa me prometeu que vós me curaríeis.
— Mas, como poderei fazer isso? Não deu ele mais nenhuma indicação?
— Sim, disse que se vós me carregásseis em vossos ombros do palácio até a Catedral, Deus faria o milagre. Piedade, ó rei, tende compaixão do último de vossos súditos!
— Como não, meu filho? Suba e vamos!
Soaram os trompetes, os guardas se perfilaram: o rei vai sair! Os súditos se amontoaram nas ruas para ver a carruagem real passar. Porém, um espanto geral percorreu o povo: não viam a carruagem dourada puxada pelos ágeis cavalos vindos de Espanha, mas sim um pobre trapo humano montado sobre o rei. Os murmúrios começaram:
— Logo esse mendigo miserável vai montar no nosso rei?
— Isso é um desaforo! Como ele ousou fazer isso?
— Que louco! E como o rei deixou?
O rei e o mendigo não se importavam com o que diziam. Um e outro iam compenetrados e rezando juntos, pedindo o milagre.
O povo espantado formava filas atrás do monarca, curioso para saber como terminaria tão inusitado espetáculo.
No caminho, as vestes reais iam se enchendo do pus e do sangue que escorriam das feridas do mendigo. E o pobre já ia sentindo alguns movimentos mais livres...
Quando chegaram ao templo, sob expectativa geral, dirigiram-se até o altar e o rei depôs seu precioso fardo no chão. Este, com todos os seus membros curados e sua pele limpa como a de um bebê, imediatamente se ajoelhou e, chorando de alegria, pediu a bênção ao soberano. O rei o levantou e, abraçando-o, disse:
— Meu filho, agradeçamos juntos a Deus este grande milagre, com que a Sua Divina clemência se dignou hoje favorecer-nos.
E toda a multidão, encabeçada por sua Majestade e pelo pobre Gilla, assistiu fervorosamente à solene Missa, na qual agradeceram a Deus um tão bom Papa e um tão bom rei. Esta é uma bela história que orna a coroa celestial de Santo Eduardo, o Confessor, nobre filho da Santa Igreja!
Ir Maria Teresa Ribeiro Matos, EP – Revista Arautos do Evangelho - Jan 2008


sábado, 27 de dezembro de 2014

O pobre riquíssimo

Quando o velho rico Naabot leu a carta que lhe chegara àquela tarde, deu um largo suspiro...
— Ah, parentes!
Quem escrevia era um primo seu, avisando de uma próxima visita. Ah, Zabulon, filho de Dibon... Sua lembrança inspirava ao mesmo tempo pena e certa aversão. Os dois, oriundos de abastadas famílias de Israel, haviam sido muito próximos quando jovens. Passados os anos, Naabot, comerciante incansável e empreendedor, tornara-se um dos homens mais ricos de Jerusalém. Zabulon, pelo contrário, viu seus negócios rolarem numa trágica sucessão de infortúnios, e pelo que se sabia, estava, agora, à beira da completa ruína.
Porém, após anos de separação, ele estava curioso em revê-lo, assim marcou um encontro em sua casa de campo, a pouco mais de seis milhas ao sul de Jerusalém.
O sol se punha atrás das colinas arenosas, naquela tarde de dezembro, quando os primos se encontraram. O contraste entre os dois era quase chocante. Naabot era a figura encarnada da boa fortuna. Alegre, gordo e recendendo perfumes delicados, trajava uma túnica de seda persa, e vistosos anéis rebrilhavam em quase todos os seus dedos. Pelo contrário, o encanecido Zabulon personificava o insucesso e a pobreza. Seu rosto era marcado por uma contínua e silenciosa resignação e corpo esquálido; estava coberto por uma túnica tão gasta, que não se podia adivinhar a cor original. Quem o visse, não poderia supor que um dia fora homem de posses. Condoído, Naabot fez-lhe um convite para jantar, humildemente aceito pelo outro.
Durante a ceia, a qual o pobre compreensivelmente devorou com avidez, discorreram sobre o passado, relembrando a infância e a juventude de ambos. Em certo momento, Naabot declarou ao primo seu modo de ver as coisas:
— Veja, Zabulon, eu respeito profundamente ao Deus de Abraão, mas deixemos o Todo-poderoso dentro de Seu templo, que aliás é bem grande. Aqui fora, sobretudo no comércio, temos de usar toda astúcia e todos os meios que estiverem ao nosso alcance, para obter o sucesso e a riqueza. E dizia isso crispando as mãos, como a agarrar um punhado de imaginárias moedas diante de si.
O primo pobre, homem piedoso, não concordou com aquela opinião materialista de Naabot, e discutiram ainda um bom tempo, noite adentro. Embora se respeitassem, havia entre os dois uma profunda divergência na maneira de encarar a vida. Por fim, vendo que não chegariam a conclusão nenhuma, Naabot interrompeu a conversa e disse:
— Bem, sejamos francos, então. Não terá sido para discutir filosofia, nem para matar as saudades, que meu bom primo veio até aqui. Diga então, Zabulon, há mais algo em que eu possa lhe ajudar?
— Sim, disse o desventurado, curvando a cabeça. Preciso de sua ajuda. Mas não venho pedir dinheiro, venho apenas propor um negócio.
— E que negócio? — Perguntou o comerciante curioso.
— Como deve saber, já perdi tudo o que tinha. Tudo, exceto um pequeno naco de terra, restante de uma fazenda outrora grande, não muito distante daqui. Crê que pode comprar-me este pequeno sítio?
O rico homem deu uma risada.
— Ora, ora, meu caro Zabulon. Se posso comprar? Posso lhe dizer, sem exagero nem soberba, que tenho dinheiro para comprar qualquer coisa em Jerusalém, exceto o Templo e o palácio do governador, pois estes, evidentemente, não estão à venda. Ouça: se esse teu sítio por acaso valesse mais do que estou pensando em oferecer, eu lhe entregaria no ato todos os meus anéis. E balançava levemente a mão, fazendo rebrilhar os diamantes e as safiras. Você disse que não é longe? Apanhemos dois cavalos e uns homens de escolta. Vejamos o tal terreno. Assim, esta noite mesmo lhe pago, e não digam os fariseus que não ajudei um parente necessitado.
E assim foi. Era uma noite maravilhosamente estrelada, bela e clara. E como Zabulon havia dito, o lugar era próximo. Mas ao chegarem lá, viram a certa distância, próximo a uma colina, alguns vultos de homens, camelos e cavalos.
— Oh, uma caravana. Seu terreno está ocupado por beduínos, Zabulon. Vai-me custar dinheiro tirá-los daí. Vamos ver mais de perto, quantos são.
Mas ao se aproximarem, Naabot viu os preciosos enfeites dos camelos e, espantado, murmurou:
— Por Elias, não são beduínos, são homens ricos, talvez até nobres! Que fazem eles aqui? Cheios de curiosidade, os dois judeus e seus guardas foram aproximando-se mais e mais. Já não prestavam atenção aos membros da caravana, nem estes neles. Então, surgiram os três chefes daquele grupo desconhecido. Os israelitas ficaram boquiabertos. Não eram simples nobres, eram reis coroados. Tão ricos e faustosos, que Naabot subitamente sentiu sua pretensa fortuna encolher a ponto de parecer insignificante.
Eles não haviam percebido, mas aos pés da elevação havia uma pequena e pobre gruta, para a qual os enigmáticos reis se dirigiram. Olhando para o céu, Zabulon deu-se conta que a noite estava clara não tanto pelas estrelas, mas por uma em especial, que superando todas em brilho, parecia repousar delicadamente sobre a colina.
Dentro da gruta havia, entre algum gado, um homem com sua jovem esposa, a qual tinha ao colo um Menino recém-nascido, com um suave sorriso no rosto. Era algo fantástico, pois deste Menino parecia irradiar uma misteriosa e tênue luz, que envolvia a gruta e todos os presentes. Entrando os reis, um a um, inclinaram-se em adoração diante do Menino, tocando o solo com suas frontes, e oferecendo-lhe soberbos presentes. Mais tarde, pastores da região começaram a chegar, e todos, de joelhos, permaneceram em respeitoso e admirado silêncio diante do extraordinário Menino.
Passou-se um bom tempo, naquela serena e maravilhosa atmosfera, mas por fim, Naabot e seu grupo perceberam ser o momento de partir. Fazendo uma última reverência, saíram sem fazer ruído, e depois caminharam longamente calados. Então, Naabot rompeu o silêncio, e tirando um a um seus preciosos anéis, foi entregando-os a seu primo, enquanto dizia:
— Cumpro o que disse. Toma, Zabulon. Tu és o pobre mais rico que existe. Estes anéis não são mais que uma migalha. Teu terreno e tua gruta não têm preço. Não há ouro em todo o Império Romano que possa pagar o que valem.
E um dos guardas, ousando dirigir a palavra, perguntou a seu amo:
— Meu senhor Naabot, será então, que um novo profeta veio a nós? Os dois primos olharam-se, e Zabulon respondeu:
— Não, meu filho. Diante de nós, cumpriram-se séculos e séculos de profecias... Esta noite, o Messias surgiu em Israel.
Michelle Boy Frank – Revista Arautos do Evangelho - Dezembro 2008


domingo, 7 de dezembro de 2014

O pirilampo

Contemplando o sol que declinava no horizonte, Joana pensava em seu destino, em companhia de Fernando, o filhinho de seis anos. Depois de algum tempo de silêncio, debruçou a cabeça sobre os braços e pôs-se a chorar. Qual a causa dessa dor?
Joana ficara viúva havia pouco tempo. Luís, seu marido, morrera na primavera anterior. Era um moço muito estimado na vila. Graças a seu espírito empreendedor, conseguira com algumas economias comprar a casinha em que agora se encontravam Joana e o pequeno Fernando.
A aquisição, porém, não só lhe absorveu tudo quanto havia poupado, mas ainda o obrigou a contrair algumas dívidas, que contava pagar aos poucos. A morte prematura — vítima de uma epidemia que irrompeu na vila, deixando muitas famílias no luto e na tristeza — veio interromper seus planos.
Luís trabalhara muito dedicadamente para um rico proprietário, o qual, em recompensa, lhe emprestara oitocentos francos para a aquisição da pequena propriedade. O jovem se comprometera a pagar cem francos por ano ao seu protetor. Sete prestações haviam sido quitadas com pontualidade, faltava apenas a última. Mas, durante a epidemia, faleceu também o credor de Luís, e agora seus herdeiros exigiam da viúva o pagamento da importância total de oitocentos francos.
Em vão Joana jurou e garantiu que só faltavam cem francos. Não tendo, porém, nenhum recibo ou qualquer outra prova, o juiz decidiu que a propriedade seria vendida para saldar a dívida do esposo falecido. Assim, no dia seguinte a casa seria penhorada e ela, além de ter perdido o marido, ficaria também sem abrigo.
Por isso a pobre viúva, olhando para o céu naquela tarde, se mostrava tão triste: seria aquela a última noite que passaria no seu pequeno lar.
* * *
Fernando, sem entender bem o que se passava, chegou-se à mãe e lhe disse:
— Mamãe, não chore mais. Lembre-se do que papai dizia antes de morrer: “Deus é o protetor das viúvas e o pai dos órfãos. Em todas as dificuldades, rezem a Ele. Deus velará por vocês, não os abandonará”. Não era assim que ele falava?
— É, sim, meu filho — respondeu Joana, suavemente consolada com a lembrança dessas palavras.
— Então, por que mamãe chora tanto? Reze a Deus, Ele nos há de socorrer...
— Tem razão, meu filho — concordou ela, abraçando o menino que soubera confortá-la com palavras tão inesperadas numa criança de sua idade.
A jovem mãe ajoelhou-se, juntou as mãos e começou a rezar com fervor:
— Ó Pai Nosso, por meio de vossa Mãe, eu Vos peço, ouvi a prece de uma pobre mãe aflita e de um órfão desamparado! Não temos socorro algum neste mundo, mas Vós sois todo-poderoso e por isso Vos invocamos em nossa aflição. Não permitais que a injustiça nos expulse desta casa.
* * *
Ao terminar essa prece, a jovem viúva sentiu-se profundamente comovida. Fernando, que olhava pela janela, de repente gritou:
— Olhe, mamãe, olhe! É uma estrela que se move, olhe!... Agora subiu... Desce mais para perto de nós!... A estrelinha vem entrando pela janela, mamãe!... Olhe como é bonita!...
— É um pirilampo, um vaga-lume, meu filho. De dia parece um bichinho comum, mas à noite brilha muito, como você está vendo.
— Posso pegar, mamãe? Ele queima a gente com aquela luzinha?
— Não, não queima, meu filho. Você pode pegar à vontade. É uma luzinha fria, pode pegar sem receio.
Fernando não esperou mais. Correu atrás do vaga-lume que penetrara no quarto e caíra no chão. Mas não conseguiu apanhá-lo, pois o bichinho meteu-se embaixo de um grande armário.
— Eu o estou vendo daqui, mamãe. Mas não consigo alcançá-lo... Como brilha!
— Espere um pouco, meu filho. Logo ele vai sair daí e então você poderá pegá-lo.
Fernando esperou um pouco. Mas, impaciente por deitar a mão no vagalume, suplicou à mãe:
— Ajude-me, mãezinha, ajude-me! Faça-o sair dali... Ou então afaste um pouco o armário, que eu então o alcanço...
Joana levantou-se para satisfazer o filho, e com um pouco de esforço conseguiu arredar o armário. O menino pegou o inseto, meio receoso a princípio, e começou a examiná-lo. O mais curioso foi que, ao afastar o armário da parede, alguma coisa caiu lá atrás, produzindo um pequeno ruído. Joana abaixou-se para ver de que se tratava e apanhou uma espécie de caderneta, com anotações e documentos.
Que seria?
* * *
A jovem viúva pôs-se logo a examinar o achado, à luz da vela, e não pôde evitar um grito de surpresa e alegria. Era um caderno de notas sobre os negócios do marido. Ali se achavam anotadas as prestações por ele pagas ao rico proprietário que lhe emprestara oitocentos francos! E entre as folhas ela encontrou um documento de quitação: “Declaro que no dia de São Martinho ajustei contas com Luís Blum, o qual agora me deve somente cem francos”.
Era a salvação tão ansiosamente esperada... Era a prova que lhe faltava, era Deus, enfim, que mandara aquele vagalume para indicar o lugar onde estavam as contas do marido. Por isso ela ergueu os olhos para o alto, em sinal de gratidão a Nosso Senhor e a sua Mãe Santíssima, e depois abraçou o filho, transbordando de alegria pelo verdadeiro milagre que acabara de acontecer.
O pequeno Fernando, a quem ela explicara o significado daquele documento, respondeu-lhe graciosamente:
— Fui eu, mamãe, fui eu que descobri! Se eu não pedisse para afastar o armário, a senhora não teria encontrado o papel...
— Sim, meu querido filho, foi você. Mas foi principalmente Deus, que mandou o bonito bichinho, para nos dar oportunidade de afastar o armário e descobrir a caderneta. A Ele é que devemos agradecer, a esse Deus de bondade, que tão prontamente atendeu as nossas preces. Foi Deus que nos mandou o pirilampo, meu filho!
* * *
No dia seguinte, Joana saiu muito cedo, dirigindo-se à moradia do juiz. O magistrado atendeu-a prontamente e, reconhecendo a autenticidade da quitação de dívida, mandou chamar o principal herdeiro.
Este, lendo o documento, ficou confuso, sem saber o que dizer. Por fim, arrependido do que fizera, exclamou:
— Há aqui, sem dúvida alguma, o dedo da Providência! Perdoe-me, Da. Joana, pelo modo como a tratei, pelas tristezas e aborrecimentos que lhe causei. E para compensá-la de alguma forma, faço-lhe presente dos restantes cem francos. A senhora não me deve mais nada. Vejo que Deus a quis salvar; de minha parte, quero fazer o que estiver ao meu alcance. Portanto, se de futuro vier a precisar de alguma coisa, procure-me, terei prazer em ajudá-la. Estou vendo que a senhora tem confiança em Deus, e essa confiança é mais preciosa do que todo o ouro do mundo.
Maria Teresa Ribeiro Matos – Arautos do Evangelho · Novembro 2005